QUEM VAI PAGAR OS
DANOS DO RODOANEL?
A pergunta da manchetíssima dessa edição é apenas retórica, mas bem que poderia fazer parte de uma pauta especial num encontro com o governo do Estado, ao menos para uma espécie de tentativa de encontrar medida compensatória para minimizar o presente de grego em forma do Rodoanel. Isso mesmo: o Rodoanel acelerou o processo de desindustrialização do Grande ABC num período em que se dava como certo que a febre de perdas estaria sob controle.
Resolvi atualizar os dados do PIB (Produto Interno Bruto) incorporando o ano de 2023, recentemente anunciado pelo IBGE. O que encontrei foi o alargamento da distância entre Barueri e Osasco, maiores economias da Grande Oeste da Região Metropolitana de São Paulo, e o Grande ABC.
O que era vantagem do Grande ABC antes da chegada do trecho Oeste do Rodoanel, inaugurado em 2002, virou desvantagem. Ou seja: Barueri e Osasco são uma São Bernardo em população, superam em valores absolutos os cinco principais municípios do Grande ABC no indicador que encerra qualquer discussão sobre Desenvolvimento Econômico. PIB é a geração de riqueza em produtos e serviços. Não se discute a qualidade dos resultados. O que interessa é a bola no barbante dos dados finais.
VIRADA NO PLACAR
A soma do PIB de Osasco e de Barueri é maior que a soma de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Mauá. Deixamos de lado Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra porque não são endereços com competividade econômica e também porque não passam de 2% do PIB Regional. Incluir os dois municípios não alteraria em nada a situação. Em outros estudos, comparamos a Grande Oeste de sete municípios e o Grande ABC de igualmente sete municípios. Hoje decidimos mudar. Somente cachorros grandes econômicos estão nos dados.
Sabem os leitores qual era o resultado dessa disputa de cinco contra dois em 2003, um ano depois da inauguração do placar do trecho Oeste do Rodoanel, que serve Barueri e Osasco? O Grande ABC dos cinco municípios selecionados representava vantagem de 48% sobre o PIB de Barueri e Osasco juntos. Traduzindo: Barueri e Osasco contavam com participação relativa de 52,66% no PIB do Grande ABC. Exatamente 20 anos depois, em 2023, o PIB de Barueri e Osasco é 7,00% maior que o PIB dos cinco municípios do Grande ABC. O que era goleada virou placar apertado para o adversário, que estava perdendo. Nesse mata-mata econômico, o Grande ABC foi duramente derrotado. E o será continuamente porque o andar da carruagem não foi alterado.
POUPANDO DE VEXAME
Também para poupar o Grande ABC de um vexame maior imposto pelo traçado e pelas especificidades e discricionaridades do Rodoanel, decidi desta feita não incluir os demais municípios da Grande Oeste da Metrópole Paulista. São mais cinco municípios. Também decidi deixar de lado o Grande Norte, de Guarulhos e vizinhança, também beneficiado com a chegada do trecho Oeste. Mas nos próximos tempos vamos ter de incluir o Grande Norte de Guarulhos, Mogi das Cruzes e outros endereços. Afinal, o trecho Norte do Rodoanel está em fase final de construção. Será, possivelmente, o mais competitivo entre os quatro trechos que formam o circuito.
O novo traçado, do Grande Norte, vai ser inaugurado em breve. Vai fechar o circuito de 176 quilômetros ao redor da metrópole. Já imaginaram o quanto isso vai causar de novos danos ao Grande ABC, além dos estragos já provocados? Nossa logística externa tornou-se uma lástima ante os concorrentes. Logística externa é tudo que foge do traçado urbano dos sete municípios da região que, como se sabe, também não é lá essas coisas, Longe disso.
O Grande ABC foi duramente prejudicado pelo Rodoanel porque o Rodoanel passa muito distante das divisas mais competitivas a investimentos. Somente uma beirada de Mauá, no Bairro Sertãozinho, conta com um braço que pode ser considerado auxiliar do traçado principal do Rodoanel. As demais interseções são limitadas em acessibilidade. Obedecem a rigores da legislação ambiental mais severa na Serra do Mar.
BARRADO DO BAILE
O Rodoanel é praticamente um circuito fechado para o Grande ABC. O que deveria ser alento ao retorno da competitividade perdida ao longo dos anos, virou um terror. Essa caçapa foi cantada muito antes de CapitalSocial substituir a revista de papel LivreMercado. Os alertas não surtiram efeitos. O Grande ABC jamais deu atenção estratégica rigorosa ao Rodoanel. Deixou-se ludibriar pelo discurso ambientalista sem se socorrer de medidas mitigatórias às perdas potenciais então apontadas e confirmadas.
Os números do PIB expressam sem retoques a evasão de muitas industriais em direção à região Oeste da Grande São Paulo. Em estudo complementar, vou dar mais detalhes sobre isso. Essa evasão também contou com a concorrência da Baixada Santista. Aqueles nove municípios cresceram mais que o Grande ABC desde que o Rodoanel virou peça-chave em logística metropolitana.
Convém lembrar que o Rodoanel não começou a provocar estragos no Grande ABC apenas quando foi inaugurado em 2002 , no trecho Oeste. Até então, estávamos fora do anel viário. O quadro ficou ainda mais dramático em 2010, quando o trecho Sul, próximo ao Grande ABC, arrancou comemorações e uma frase antológica do governador Geraldo Alckmin.
MELHOR ESQUIINA
O que disse o hoje vice-presidente da República? Geraldo Alckmin declarou a pleno pulmões que o Rodoanel era a melhor esquina do Brasil. Os jornais meteram a declaração em manchetíssimas. A resposta político-interesseira ao gataborralheirismo é enfermidade incurável.
Com o trecho Sul, o trecho infernal do Grande ABC que o governo do Estado entregou sem se dar conta ou negligenciando tratar-se de um presente de grego, o caminho em direção à Baixada Santista ficou livre. Os obstáculos do traçado tornaram o território do Grande ABC ostensivamente sensível à degradação ambiental. Por isso, o Rodoanel passa apenas de passagem pela geografia do Grande ABC.
Ao dar as dimensões dos resultados dos dois trechos do Rodoanel, os trechos Oeste e Sul, que se estende por exatos 20 anos, o Grande ABC viu o PIB dos cinco maiores municípios sair de R$ 33.823.808 bilhões em valores nominais de 2003 para R$ 177.690.406 bilhões em 2023, também em valores nominais. Um crescimento de 425,31% -- evidentemente sem condicionantes inflacionárias.
Na largada de 2003 o Grande ABC dominava o jogo do PIB contra Barueri e Osasco, que totalizaram R$ 17.813.425 bilhões. Os dois municípios saltaram para R$ 191.050.761 bilhões em 2023. O que era vantagem do Grande ABC de R$ 16.009.981 bilhões, sempre em valores nominais, que não consideram a inflação, virou desvantagem de 13.370.355 bilhões. Sabe o que isso significa? Osasco e Barueri contam com metade do PIB de Mauá de vantagem sobre os cinco municípios do Grande ABC. Osasco e Barueri cresceram nos 20 anos nada menos que 972,50% em valores nominais. Mais que o dobro do Grande ABC.
Nada é por acaso quando o PIB entra em campo. Ninguém produz riqueza ou engata uma marcha a ré sem analisar profundamente dezenas de indicadores, comparando-os a outras localidades.
LOGÍSTICA E LOGÍSTICA
O Grande ABC já atordoado com a desindustrialização em que logística não apareceria como inimigo preferencial a ser enfrentado, embora fosse inquietante no conjunto de indicadores, estatelou-se de vez quando a distância e os custos entre dois ou mais pontos passaram a ser mantra de competitividade.
O Grande ABC está tão atordoado e desatualizado, quando não fossilizado, que ainda aparecem cultores da competitividade da região. Colocam esses ilusionistas o Porto de Santos e o Aeroporto de Guarulhos como pontos de vantagem, pela proximidade física. Mal sabem ou fingem não saber que logística é outra coisa nestes tempos de tecnologia avançada. A proximidade física que fazia a diferença em tempos analógicos tornou-se relativa com a chegada da Inteligência Artificial.
O resumo dessa ópera e que torna mais grave a situação econômica do Grande ABC, porque gera falsas expectativas que de fato não passam de distorções monumentais, é que muitos confundem logística interna, urbana, com logística externa. A chegada de grandes competidores de comércio eletrônico detentores de centros de distribuição avantajados é vista como exemplo de que o caos logístico do Grande ABC é balela. Nada mais estrepitosamente ignorante.
O comercio eletrônico e suas entregas cada vez mais velozes driblam situações graves como a logística interna do Grande ABC exatamente com a instalação de Centros de Distribuição que não passam de entrepostos tecnologicamente apetrechados para colocar os produtos nos endereços dos clientes contando com frotas de veículos de pequeno porte e minicentros de redistribuição.
Qualquer inferno em mobilidade urbana não resiste às façanhas metodológicas dos magos do comércio eletrônico. Eles dão elasticidade econômica ao conceito de tempo e espaço. Nada que possa ser reproduzido em larga escala à clientela industrial. O buraco das peculiaridade é muito mais embaixo. Aproximar produção e centro de suprimento, e o caminho inverso, de produção e distribuição, são outros quinhentos no confronto com o comércio eletrônico de última milha.
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