Sociedade

NEM PLURALIDADE,
NEM SOCIEDADE

  DANIEL LIMA - 28/05/2026

Escrevi de passagem esta semana uma frase que continha correlação provocativa. A Folha de São Paulo não é pluralista coisa nenhuma e eu não tenho vocação alguma para atuar como assessor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Sou obrigado a esclarecer essa bagaça e , com isso, desqualificar o juízo de valor precipitado  que tentam  me impingir. Nenhuma novidade nestes tempos de cobranças justas e injustas. Faz parte do jogo. Quando escrevi, tinha certeza de que uma nova pauta seria levada adiante. 

Sobre a Folha de São Paulo,  devo dizer ao distinto público que possivelmente ficaria meio perdido entre as 40 páginas diligentemente  selecionadas de jornais físicos que recebo diariamente caso não contasse com a parcela da Folha. Adoro consumir a Folha do Datafolha porque sem o Datafolha e tantas outras coisas da Folha,  certamente não seria o jornalista jamais satisfeito com o agregado de conhecimento.

A Folha de S. Paulo, de carne e osso, ou seja, de papel impresso e passado, é mesmo essencial a quem pretende entender o País. A versão digital é dispensável. Nessa modalidade, conto com o Estadão. Descontinuei a assinatura do Estadão de papel depois de o Estadão de papel mudar de formato. A Folha de S. Paulo seguiu o mesmo ritual e a mantenho como produto físico porque faz parte de meu cotidiano arquivar provisoriamente ou não determinadas matérias. 

IMPRESSO E DIGITAL

A diferença entre um jornal e outro jornal entre muitas variáveis que os tornam isso mesmo, diferentes, é que perdi muito da capacidade de compreender o Estadão desde que me limitei à versão digital. Uma edição de papel é muito mais catalizadora de atenção e garantidora de hierarquização do noticiário, editado conforme temáticas.

O jornal digital é uma produção igualmente segmentada, mas perde o sentido clássico de edição integrada, de conexões, entre outras razões porque o mundo digital é uma bateria de escola de samba a invadir um convento. Não se sabe se ouvimos um cântico religioso ou uma marcha de carnaval.

Perdemos a atenção se não houver senso de concentração em meio às pernas grossas das cabrochas digitais e o véu sagrado de leitura de papel. Estudos científicos provam que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, por isso a distinção que separa samba e religião não é especulação ou ignorância. É realidade nas veias. Ainda mais para quem não abre mão do uso de uma esferográfica preta para sublinhar e destacar pontos de leituras que mais chamam a atenção e, com isso, reforça o processo de memorização. Esse é um dos meus truques, por assim dizer, para fazer da leitura espécie de aula presencial.  

LEITURA DE OMBUDMAN

Leio a Folha com as lentes críticas afiadíssimas.  A Folha aos olhos ingênuos parecerá mesmo um jornal apartidário, desideologizado e tantas outras coisas que desmascaro diariamente com a já incorporada e metabolizada leitura mastigada em forma de ombudsman. Já escrevi inúmeras vezes sofre a diferença entre o leitor comum e o leitor-ombudsman. É um aprendizado eterno. Os olhos de um ombudsman brilham mais que os olhos de um leitor convencional. Digo isso com conhecimento de causa. Quando leio sem acrescentar a função de ombudsman, sinto que estou me traindo.

Não fosse a Folha do Datafolha e o Datafolha da Folha, meu faro fino de ombudsman  perderia a sensibilidade. Seria este jornalista um cachorro velho de guerra sem rumo e sem prumo.  Portanto,  devo o que sou como escarafunchador do jornalismo de papel ou digital ao grande jornal da Capital. A Folha do Datafolha me inspira a manter acesa a chama de observador crítico.

É claro que neste texto não vou ao âmago da falsa pluralidade da Folha de São Paulo. Já o fiz em várias situações,  sobremodo da dupla Folha e Datafolha.

MÁQUINA SOFISTICADA

Dizer que a Folha de São Paulo é a mais sofisticada máquina de direcionamento de informações e análises de colunistas tendo a precisão suíça de levar muita gente no bico da pluralidade é um elogio,  não ofensa.  O mais comum é o jornalismo tropeçar frequentemente em contradições sem o menor pudor,  porque se acredita com razão que os leitores em geral têm a memória curta, dispersiva e seletiva.  Um tripé formidável aos jornais desatentos,  desorganizados e paus para todas as obras.

Nem Folha nem Datafolha me enganam, mas mesmo com todos os defeitos que carregam no peito de conceitos prestidigitadores, seria o fim do mundo se me pedissem para excluir a Folha e o Datafolha de minhas ocupações.  Muito da política estadual e nacional de amanhã está na Folha e no Datafolha não necessariamente por virtudes esclarecedoras,  mas principalmente por vícios incorporados às matrizes editoriais.

Vou traduzir: a Folha tem tanta gente diretamente e indiretamente no produto diário que circula materialmente com menos de 50 mil exemplares que é possível capturar os movimentos que precedem  manchetíssimas. As obviedades embutidas em cada edição da Folha de S. Paulo não estão ao alcance de simples mortais em forma de leitores comuns. A Folha de S. Paulo é uma obra de arte compreendida por parcela ínfima do leitorado e eleitorado.

Poderia escrever um livro robusto,  convincente e duramente crítico à Folha de São Paulo.  Seria um tapa de luva de pelica no rosto de uma turma protegida pela Folha que ainda outro dia   se manifestou candidamente adepta da risível pluralidade à moda da casa. 

Quanto aos sindicalistas no Grande ABC,  metalúrgicos principalmente, o que nos separa são meus cromossomos em defesa da livre-iniciativa, herança familiar de um pai e de uma mãe que tanto sofreram para sustentar a família com pequenos negócios e de familiares igualmente sobrecarregados pelas durezas de empreendedorismo massacrado pela concorrência nem sempre ética e principalmente pela gulodice fiscal do Estado Todo Poderoso.

É claro que esse DNA não criou uma resistência incontornável aos sindicatos. Tanto é verdade que jamais atribui aos representantes dos trabalhadores parcela majoritária dos desarranjos regionais que culminaram na desindustrialização. Os sindicalistas estão no combo de responsabilidade com alta taxa de participação no desastre regional, mas há ao menos uma dezena de motivos relativamente menos preponderantes mas fortemente sustentáveis.

Os sindicalistas,  e esse é o ponto central de minhas objeções,  jamais pensaram e se moveram fora dos muros do corporativismo de classe. A sociedade como um todo só é lembrada quando buscam votos fora das quatro linhas corporativas de representatividade política.  As exceções confirmam as regras.

OUTRA COISA

Nada disso combina com o que entendo como responsabilidade social. Aliás,  o que temos são embates filosóficos. Um exemplo: a aberração de os sindicalistas esquecerem tudo o que significa o modelo trabalhista chinês,  entre outras iniquidades,  e se lançarem numa operação patética,  estúpida,  ideológica e negacionista, por investimentos dos asiáticos na região.  Santa ignorância? Nada disso.  É fanatismo doutrinário e desprezo insano às próprias conquistas trabalhistas alcançadas a ferro e fogo nas empresas locais. Inclusive de pequenas e médias indústrias familiares, submetidas às mesmas pautas reivindicatórias das montadoras de veículos e grandes autopeças.

Como botar no mesmo pacote de exigências pauta igual para grandes e pequenas industrias quando o custo da mão de obra para as primeiras beiravam a 8% e para as segundas quase 30%? Foi assim que o pequeno negócio industrial familiar do Grande ABC virou pó, principalmente nos anos 1990. O que temos hoje em larga escala são sobreviventes cada vez mais asfixiados.

Os ativos e os passivos do sindicalismo no Grande ABC compõem uma planilha ainda a ser avaliada, mesmo tendo este jornalista abordado essa questão ao longo de décadas.  A conta está ativa inclusive porque aberrações como o pretendido desembarque asiático aparecem para depreciar a qualidade da representação sindical.

Por conta do perfil ideológico do jornalismo nacional, os rigores da atividade nem sempre constam da pauta de forma harmoniosa com os interesses dos leitores.

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