Economia

JÁ IMAGINOU SE REGIÃO
FOSSE SÃO CAETANO (2)

  DANIEL LIMA - 27/05/2026

O PIB de Consumo previsto para esta temporada no Grande ABC seria 34,77% maior se num passe de mágica a realidade de riqueza acumulada pela população de São Caetano fosse transposta integralmente à vizinhança chamada Grande ABC. Uma vizinhança que até meados do século passado era território de identidade única e, em poucos anos, virou sete cidades.

Jamais vou engolir esse divisionismo, justamente num período pós-Guerra Mundial que tratou de juntar as peças de integração e institucionalidade no Mundo Livre. Ou seja: havia um ambiente internacional de ajuntamento em torno de objetivos em comum, não de novas rupturas geopolíticas.

Sabe o que aconteceria se o passe de mágica não fosse apenas um sonho? O PIB de Consumo registraria o valor total de R$ 202.739.761 bilhões. Nada menos que R$ 52.307.813 bilhões acima do valor de fato potencialmente a ser consumado, de R$ 150.431.949 bilhões.

Os valores são abstratos quando o leitor que também é consumidor não tem referências que os lance a projetar o significado real dessa equação.

QUANTOS APARTAMENTOS?

Experimente imaginar o que são R$ 52 bilhões. Escolha alguns exemplos. Um apartamento de classe média com 50 metros quadrados vale no Grande ABC perto de R$ 500 mil. Quantos apartamentos seriam negociados nesta temporada o Grande ABC fosse São Caetano? Quando o leitor terminar de acompanhar esse texto, sugiro que faça as contas para chegar às unidades adicionais que estariam à disposição de compradores. É muito dinheiro. E muito apartamento. As construtoras e incorporadoras estariam nadando de braçadas.

Que tal informar que a diferença, os tais R$ 52 bilhões, correspondem à soma do PIB de Consumo de Santo André, de Ribeirão Pires e de Rio Grande da Serra? É exatamente tudo isso que faz falta ao Grande ABC quando se pega São Caetano como exemplo de sucesso econômico que se traduz em qualidade de vida. Não à toa a cidade mais conservadora da região ocupa a quarta posição no ranking nacional de PIB de Consumo por habitante.

Esta minissérie procura dar a exata dimensão do que tanto falam ao longo de décadas, ou seja, que São Caetano é um caso à parte num Grande ABC convulsionado ao longo das últimas décadas pela explosão demográfica, desindustrialização, periferização habitacional e baixíssima mobilidade social. Aliás, nenhuma mobilidade social quando se tem o topo da hierarquia socioeconômica, a classe rica e a classe média tradicional. Mais que isso: mobilidade reversa, porque a fatia correspondente a ricos e classe média tradicional foi reduzida em seis cidades. Somente São Caetano resistiu, praticamente sem baixa, mesmo sofrendo com fortíssima desindustrialização.

CONSUMO AVANTAJADO

O que torna São Caetano muito à frente da vizinhança regional é um PIB de Consumo per capita mais avantajado. Os números da Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini, especialista no assunto há mais de três décadas, não deixam pedra de dúvida sobre pedra de dúvida, porque são esclarecedores.

O PIB de Consumo per capita de São Caetano desta temporada registra o valor de R$ 72.515,52. Santo André é quem mais se aproxima, com R$ 60.068,33. Ou seja: a participação relativa do PIB de Consumo por habitante de Santo André é de 82,97%, ou 17,03 pontos percentuais abaixo de São Caetano. Medir o tamanho da riqueza de consumo entre Santo André e São Caetano sem levar em conta o valor per capita é um grande erro.

No ranking nacional por habitante, Santo André ocupa a posição 64.  No ranking geral, sem o filtro por habitante, Santo André é a 16ª colocada e São Caetano está na posição 111. Isso não tem sentido como expressão de realidade. Assim como no PIB Tradicional,  qualquer resultado que não observe o fator por habitante está fadado a reconfiguração avaliativa. 

SÃO BERNARDO NA MÉDIA

O PIB chinês é avantajado por causa de quase 1,5 bilhão de habitantes, mas está muito abaixo do PIB dos Estados Unidos e da maioria dos países da Europa. A China conta com algo próximo de 300 milhões de habitantes com relativa qualidade de vida. O restante, que é a grande maioria, sofre as dores do parto de um autoritarismo socialista cruel. Não tenho apreço nenhum pelos chineses, porque os chineses negam a liberdade. Mais que negarem, perseguem quem a defenda. Mas isso é outra história.

Abaixo de Santo André e sempre em cotejamento com São Caetano,  está o PIB de Consumo per capita de São Bernardo. A participação é de 73,79% ante São Caetano. São R$ 53.508,44.

O resultado de São Bernardo é muito semelhante à média dos sete municípios do Grande ABC, que registra R$ 53.806,17 por habitantes.

Os demais municípios estão todos abaixo do valor médio da região: Diadema registrou PIB de Consumo per capita de R$ 45.167,09, Mauá consolidou R$ 45.625,34, Ribeirão Pires R$ 50.246,13 e Rio Grande da Serra R$ 42.837,22.

O que faz a diferença de São Caetano na disputa de PIB de Consumo per capita no Grande ABC é a participação relativa da classe rica e de classe média tradicional no conjunto de residências. E a diferença é mesmo elevada. São Caetano conta com 47,11% de residências das duas classes sociais. Muito acima da média regional de 30,54%, enquanto Santo André registra 33,01%, São Bernardo 31,99%, Diadema 23,46%, Mauá 24,56%, Ribeirão Pires 28,42% e Rio Grande da Serra 21,41%. Está explicado e detalhado o modelo de sucesso de São Caetano.

CONSUMO POR CLASSE

Participação relativa da classe rica e da classe média tradicional no conjunto de moradias é uma coisa. Outra coisa é a participação relativa no consumo efetivo. E também nesse ponto, São Caetano lidera com facilidade. As classes rica e média tradicional de São Caetano consomem 75,5% do total de R$ 12.562.153 bilhões previstos para esta temporada. Em Diadema, essas mesmas classes sociais do topo da hierarquia econômica participam com apenas 48,2% do total de consumo de R$ 18.199.446 bilhões. Diadema conta com 402.936 habitantes e 145.996 residências, enquanto São Caetano registra 173.294 habitantes e 64.477 residências.

Segunda colocada no ranking regional de participação relativa de ricos e classe média tradicional no conjunto de moradias, Santo André soma 64,1% do total de consumo de R$ 47.165.352 bilhões, resultado de 290.963 moradias e 785.195 habitantes.

São Bernardo perde para Santo André tanto na participação relativa de ricos e de classe média no total de moradias como também na participação de consumo. A fatia de consumo de ricos e classe média tradicional é de 59,3% de um total de 305.899 moradias e 841.591 habitantes.

Embora apresentem dados semelhantes de participação relativa de classe rica e classe média tradicional no total de moradias, Mauá supera Diadema na relação de consumo, mas sempre distante da líder São Caetano. Mauá conta com 50,60 de ricos e classe média tradicional de um total de consumo de R$ 19.552.145 bilhões distribuídos em 152.926 moradias e 428.537 habitantes.

A participação relativa no consumo de ricos e classe média tradicional em Ribeirão Pires é superior à da vizinha Mauá, com 57,5% num total previsto para esta temporada de R$ 5.979.289 bilhões para 41.171 moradias e 119.000 habitantes.

A pequena Rio Grande da Serra, com 14 mil residências e população de 45.319 habitantes, reserva 48,7% de consumo para as famílias de classe rica e classe média tradicional, de um total previsto para esta temporada de R$ 1.941.340 bilhões.

BRASIL DISTANTE

O PIB de Consumo per capita do Brasil seria 80,44% maior caso fosse realizada operação semelhante à que aferiu o valor dos sonhos do Grande ABC. A média brasileira nesse métrica cientificamente analisada pela Consultoria IPC, com base sempre e sempre em dados oficiais, registra R$ 40.187,69 por habitante. O resultado é inferior ao contabilizado pelo pior PIB de Consumo per capita do Grande ABC, no caso Rio Grande da Serra.

O PIB de Consumo per capita elevado em 80,44% corresponderia à transposição do valor médio de São Caetano levado a mais de 214 milhões de habitantes. O PIB de Consumo Geral desta temporada no Brasil está avaliado pela Consultoria IPC em R$ 8.608.683 bilhões.  Anabolizado pela média de São Caetano, chegaria a R$ 15.533689 bilhões.

Como um todo, o PIB de Consumo do Brasil para esta temporada conta com participação relativa de 23,26% das classes rica e média tradicional. Muito abaixo de qualquer Município do Grande ABC. E na escala de consumo, os ricos e a classe média tradicional do País ficam com 53,80% do volume projetado para esta temporada.

Esse movimento de números já foi muito mais contrastante no passado. Entretanto, lentamente, a média nacional vai se elevando em relação às perdas médias do Grande ABC. Por mais que o Grande ABC insista em perder musculatura de consumo, ou de riqueza acumulada, está anos-luz à frente da média nacional. Essa constatação pode aliviar o peso das perdas da região quando observada por otimistas incansáveis, mas não resiste a algumas centenas de municípios que neste século estão avançando cada vez mais no bolo de consumo nacional.

Leia mais matérias desta seção: