Regionalidade

ARCA DE NOÉ CONTRA O
GATABORRALHEIRISMO (4)

  DANIEL LIMA - 17/04/2026

Os anos 1990, mais precisamente a segunda metade dos anos 1990, foram os mais agitados no Grande ABC como sinônimo de mobilização. E também provocaram, na sequência, as maiores decepções. Numa contradição que não pode ser explicada como consequência da desindustrialização, os anos 1990 marcaram participações individuais e institucionais de lideranças do Grande ABC em torno de uma composição inédita.

Sob a exuberância de Celso Daniel, eleito prefeito de Santo André em 1996, articulou-se e efetivou-se uma Santíssima Trindade formada pela reativação do Clube dos Prefeitos, ou Consórcio de Prefeitos, a  Agência de Desenvolvimento Regional, braço técnico daquela entidade, e a Câmara Regional do Grande ABC. A inspiração dessa mudança se deu na esteira da criação do Fórum da Cidadania, em 1994.

Tudo isso será profundamente explicado nesta série inédita no jornalismo regional. Mais que inédita: uma constelação de análises que decifram os mais relevantes acontecimentos da região. Os anos 1990 foram extraordinariamente pedagógicos, mas viraram pó na medida em que Celso Daniel foi assassinado, pouco depois da morte do governador Mário Covas, e a desindustrialização acentuou os estragos econômicos durante os oito anos de dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso – entre 1995 e 2002.

Conhecer a história da Câmara Regional é uma das lições básicas para se compreender a região antes e depois da instituição, além das demais daquele período. Sem os inovadores anos 1990 frustrantes nos primeiros tempos no novo século que chegou, é impossível distinguir vetores essenciais do Grande ABC sem incorrer em falhas gritantes.  

 

O Voo da Esperança

 DANIEL LIMA -- 05/08/1997 

Para entender o que acontece com a região depois do foguetório da definição dos 31 pontos prioritários do Plano Estratégico da Câmara do Grande ABC, inédita integração das comunidades empresarial, social e sindical, além de administrações públicas municipais e estadual, talvez a melhor sugestão seja a linguagem figurada. Supondo que o Grande ABC seja um avião já cansado de guerra, só restavam duas saídas: ou se deixava vencer pela fadiga do material, em forma de deserções industriais, vazio institucional e ausência de alternativas econômicas que agreguem valor, ou mobilizava passageiros, tripulantes e mecânicos para a troca da fuselagem desgastada, recondicionamento dos motores e elaboração de um plano de voo que o levasse a zonas de não-turbulência. A Câmara Regional representa a segunda hipótese.

Mas isso não significa que os mais de 2,3 milhões de passageiros devam desapertar os cintos. A nova viagem está apenas começando e, a bem da verdade, o roteiro que aponta 31 embarques é apenas rascunho que tanto pode ser aperfeiçoado como virar sucata. Tudo depende do que vai acontecer de agora em diante com as novas reuniões.

31 PROPOSTAS

Na fase preliminar, que culminou com a aprovação das 31 propostas em concorridos encontros no auditório da Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo, não houve maiores embates. Mas nada impede que daqui para frente se coloquem divergências conceituais à mesa de debates.

A não ser, evidentemente, que o objetivo máximo desses encontros, que já se realizam há quatro meses e que envolvem mais de 300 participantes, muitos dos quais voluntários, seja a obtenção de um Acordo do Grande ABC que contemple unanimidades burras, dessas que harmonizam todas as divergências sem, entretanto, garantir soluções.

Preliminarmente, a apuração das prioridades do Grande ABC é uma vitória da metropolização regional, da economia e da sensibilidade social. Jamais em toda história as administrações públicas dos sete Municípios se deram as mãos com tamanha intensidade. Mesmo com um prefeito recalcitrante como Luiz Tortorello, ausente nos dois dias de debates na Umesp mas representado pelo secretário de Finanças, o que se viu foi o entusiasmo de participação do Consórcio Intermunicipal liderado por Celso Daniel, prefeito de Santo André e sem exagero o grande condutor político regional.

AGENTES PÚBLICOS

Também a sociedade civil se fez presente com entidades sociais, empresariais e sindicais. É verdade que predominaram na formulação provisória dos temas-eixos da Carta do Grande ABC que deverá estar pronta até setembro os agentes públicos, isto é, funcionários das Prefeituras, com disponibilidade de tempo remunerado e que acabaram dando o toque prevalecente de social em boa parte do grupo de propostas. Esse perfil deu certo tom de romantismo em vários dos pontos privilegiados no documento aprovado na Metodista, mas não lhe retirou a seriedade.

Além disso, o governo do Estado e agora legalmente comandante da aeronave mais uma vez deu aval e colaboração. O próprio governador Mário Covas abriu o cerimonial na Umesp e cunhou uma expressão típica dos técnicos de futebol — “ganhar ou ganhar” — para sintetizar o que pensa sobre o futuro do Grande ABC.

O secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, Emerson Kapaz, de novo bateu cartão na região. Nem poderia ser diferente, porque deu o pontapé de início desse jogo integracionista ao ser convidado pelo Fórum da Cidadania, em março do ano passado. Dalí em diante, liderou o processo pelo lado do governo estadual.

AUTONOMIA EM XEQUE

Outro secretário estadual, Walter Barelli, do Emprego e Relações de Trabalho, também somou prestígio na Metodista. Até Fábio Feldmann, secretário de Meio Ambiente e motoqueiro que dribla o rodízio de veículos que ele próprio criou, fez rápido pronunciamento no dia do encerramento dos debates.

As propostas finais que agora começam a ser discutidas não são a garantia de que a aeronave tem autonomia de voo. Há superficialidades e exageros que exigem evidentes aprofundamentos e correções de rumo. Mas isso era esperado. Resta saber até que ponto predominará o pragmatismo que uma região em processo de esvaziamento recomenda ou prevalecerá o romantismo ideológico ou corporativo, espécie de reverso do qual a TAM, empresa do mundo real do transporte aéreo, não quer nem ouvir menção.

Exemplo desse maniqueísmo está na proposta que sugere a articulação de apoio às micro e pequenas empresas, associações e cooperativas com recursos do FAT, Fundo de Amparo ao Trabalhador, mediante aprovação de projetos vinculados à geração de emprego formal e de qualidade, avalizados pelas Comissões Municipais de Emprego.

MUITA SUBJETIVIDADE

O adendo defendido pelo Sindicato dos Químicos do Grande ABC, que prevê “emprego formal e de qualidade”, é tão subjetivo quanto desnecessário. Sobremodo porque qualidade é algo nem sempre tangível. É possível que um emprego numa pequena indústria tenha relativamente mais qualidade e importância social do que numa Volkswagen, que, como se sabe, tem planta na Anchieta comprovadamente obsoleta para os padrões internacionais da indústria automotiva.

Redigidas e aprovadas de forma resumida mas suficientemente elástica para permitir, nessa fase de novos debates, a plataforma de ações detalhadas, as propostas mostram que o Grande ABC já não está mais à deriva. Mesmo considerando que a quase totalidade das sugestões não representa novidade alguma. Mas, e isso deve ser reconhecido, estão alinhavadas num documento que pela representatividade de quem o formulou, e principalmente de quem o aprovou, serve de bússola para os procedimentos que recolocariam a região na rota do desenvolvimento econômico sustentado, a partir de decolagem monitorada daqui em diante.

PRIMEIRO PONTO

O primeiro ponto considera como potencialidades municipais as seguintes vocações setoriais da indústria: automotiva, autopeças, construção civil, metalmecânico, bens de capital, farmacêutico-químico, polímeros (plástico e borracha) e petroquímico. No setor terciário foram listados serviços de transportes e armazenagem, serviços de apoio, reparos de automóveis e comércio. E elenca também novas vocações econômicas, incluindo eletrônica embarcada, serviços associados à rede de comunicações no setor industrial e turismo de negócios, turismo de lazer e entretenimento, turismo ecológico, consultoria, assessoria e tecnologia.

SEGUNDO PONTO

O segundo ponto traçado visa a implantar políticas setoriais voltadas às vocações, por meio de ações que manteriam informações e análises atualizadas através de banco de dados. Também prevê programas que garantam a permanência do parque industrial instalado e a viabilização de financiamento para modernização tecnológica, com ênfase às pequenas e médias empresas. O capítulo sugere a execução de programas setoriais para essa difusão, o estabelecimento de centros setoriais de apoio à difusão tecnológica, o apoio e a inovação tecnológica das empresas através do fortalecimento das atividades de pesquisa e desenvolvimento das entidades da região, além da criação de centros cooperadores de inovação tecnológica.

TERCEIRO PONTO

O terceiro ponto aborda a geração de emprego através de cooperativas, associações, micros e pequenas empresas com base na redução tributária para compra e venda de produtos, garantida a capacidade financeira dos governos envolvidos. Essa é, como se nota, equação complicada, porque supostamente não mexe no bolso gastador do Poder Público. O capítulo se completa com o condicional de que vantagens tributárias seriam oferecidas somente a quem cumprir cláusulas de acordos coletivos, legislação trabalhista, cláusulas sociais básicas, acordos com Sindicatos e organização sindical no local do trabalho. Como se vê, algo explicitamente sindical que provavelmente não passe pelo crivo das lideranças empresariais nessa nova etapa de discussão que já se inicia. Seria a subordinação em forma de refém do empresariado a um discurso sindicalista ao extremo.

QUARTO PONTO

O quarto ponto não tem empecilhos a não ser burocráticos, porque pretende simplificar a constituição de pequenas empresas sem que seus empreendedores percam meses na fila de espera. Nesse ponto, as prefeituras deverão ser as mais solicitadas a dar fluidez à necessária burocracia, que se tem transformado em burocratismo explícito e altamente estimulante à informalidade dos negócios.

QUINTO PONTO

Já o quinto ponto, igualmente de forte teor sindical, deverá ser polêmico, porque pretende envolver os atores da Câmara do Grande ABC em ampla negociação da jornada de trabalho e escalonamento de horário de trabalho. Primeiro, porque jornada de trabalho não é algo que se decide regionalmente quando a economia está globalizada e tampouco deve ser considerada algo sério se estiver presa exclusivamente à suicida redução da carga horária sem a correspondente redução de salários. Numa economia sem fronteiras isso significa custos e perda de competitividade. Segundo, porque escalonamento regional é utopia, levando-se em conta as trocas comerciais inter-regiões de uma economia que não é autárquica. Como pode uma montadora de veículos que trabalha em regime just-in-time ser abastecida por fornecedores de outras regiões se os horários não combinarem? Talvez essa proposta tenha de ser corretivamente eliminada. Talvez seja um embarque desnecessário.

SEXTO PONTO

O sexto ponto é providencial e ambicioso: prevê plano regional de qualificação profissional integrando ações do Poder Público com escolas técnicas, universidades, empresas e sindicatos, organizadas no âmbito do Sistema Público de Emprego, abrangendo cursos modulares e de certificação. Os recursos viriam de agências nacionais e internacionais. A grande notícia dessa proposta é que parece que finalmente a região se deu conta de que não detém mais o monopólio de qualidade profissional, algo insensato quando se sabe que até recentemente as montadoras eram depósitos de apertadores de parafuso. E que também, com a globalização, escancarou-se a deficiência congênita do sistema de ensino que contamina as mais diversas categorias de trabalhadores.

SÉTIMO PONTO

O sétimo ponto também não é inverossímil: estabelece movimento regional visando à erradicação do analfabetismo até o ano 2.000. O Mova, Movimento de Alfabetização de Adultos, em Diadema, mostrou o caminho para zerar essa chaga intelectual. A Prefeitura de Santo André promete repetir a dose.

OITAVO PONTO

O oitavo ponto também prevê praticabilidade com a implementação de observatório de situações de emprego da Secretaria Estadual, a fim de elaborar estudos e pesquisas sobre empregabilidade, levando em conta sempre os interesses do público-alvo. O texto do documento parece hermético, mas pode ser traduzido da seguinte forma: será rastreado que tipo de emprego a região comporta para evitar os dramas de hoje de alto desemprego e de qualificações inadequadas às exigências de um mercado cada vez mais cruel.

NONO PONTO

O nono ponto estabelece movimento regional de apoio à infância e à adolescência, através de programa para retirar crianças das ruas e suporte com tratamento médico, odontológico, alimentação e iniciação profissional. O deputado estadual Clóvis Volpi tentou sem sucesso incluir a juventude na programação. Não consta do documento, mas poderia ser inserida no texto final da Carta do Grande ABC a transformação de dezenas de galpões industriais vazios da região em oficinas profissionalizantes patrocinadas em princípio e em parte pela própria comunidade mais próxima, mas com perspectiva de autossustentação.

DÉCIMO-PONTO

O 10º ponto defende formação de comissão para detalhar o projeto do Banco Regional de Desenvolvimento Econômico e Social. Seria uma alternativa de crédito e financiamento a pequenas e médias empresas com recursos do BNDES e internacionais. É ousadia que tanto pode ser um ovo de Colombo como fonte geradora de complicações, porque a gestão de dinheiro público é algo diabólico.

DÉCIMO-PRIMEIRO PONTO

O 11º ponto projeta a criação de núcleo de marketing. Nas especificações das tarefas constam: a) contratação e coordenação de pesquisa de imagem, qualitativa e quantitativa, com finalidade de detectar a imagem da região para cada público (interno, externo e investidores). A pesquisa tem a finalidade de fornecer subsídios ao planejamento estratégico regional; b) constituição de banco de dados regional para geração e manutenção de informações dos sete Municípios; c) viabilização do planejamento estratégico de comunicação para promover e divulgar a imagem institucional do Grande ABC, incluindo propaganda e promoção, assessoria de imprensa e relações públicas. Enfim, seria a profissionalização dos produtores da cara interna e externa do Grande ABC. O perigo é usar a maquiagem do ufanismo e tornar a empreitada ridícula.

DÉCIMO-SEGUNDO PONTO

O 12º ponto poderia ser catapultado à primeira colocação no ranking de importância, porque prevê a criação da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, que trataria de gerir o plano estratégico regional definido pela Câmara Regional, desenvolveria campanhas e outras ações de divulgação para atrair investimentos e concentraria e manteria atualizadas as informações contidas no banco de dados. É o ponto mais importante do documento, simplesmente porque o Acordo do Grande ABC poderá transformar-se numa peça de museu se lhe faltar gerenciamento executivo.

DÉCIMO-TERCEIRO PONTO

O 13º ponto envolve antigo problema regional, a Lei de Proteção dos Mananciais. A proposta é criar mecanismos de compensação financeira para municípios que sofrem os impactos da legislação. Algo parecido com os Municípios fortemente rurais do Estado, bafejados por acréscimos na redistribuição do ICMS, Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços. A aprovação pela Assembleia Legislativa é improvável. A não ser que o governo Covas assuma a responsabilidade de negociar com os parlamentares. Será que os custos valeriam a pena? Quantos dos mais de 1,3 milhão de votos Covas garantiria com a medida?

DÉCIMO-QUARTO PONTO

O 14º ponto refere-se também à Lei de Proteção dos Mananciais, mas está voltado a fomentar atividades econômicas compatíveis com a preservação ambiental. A revisão da LPM é velho drama permeado por intervenções nem sempre sóbrias. Impedem-se atividades econômicas, mas por falta de fiscalização incentiva-se a industrialização de favelas. É um tonel público duplamente deficitário, porque de um lado esvazia as receitas tributárias e de outro desvia recursos para socorrer novos problemas sociais.

DÉCIMO-QUINTO PONTO

O 15º ponto trata de garantir recursos para ações emergenciais em quatro frentes na região dos mananciais: a) recuperação e regularização das áreas habitacionais consolidadas; b) controle da expansão urbana; c) recuperação das áreas degradadas; d) educação ambiental nas áreas de intervenção, com criação de frentes de trabalho para gerar emprego e renda. É, como se nota, algo fantástico. Pena que dependa demais de recursos financeiros estranhos, cada vez mais escassos, e de uma vocação messiânica que não é exatamente a qualidade dos homens públicos.

DÉCIMO-SEXTO PONTO

O 16º ponto trata de criar a possibilidade de articular legislações urbanísticas municipais e estaduais para, respeitadas as vocações dos municípios, introduzir mecanismos de compensação regional e estimular desenvolvimento regional equilibrado no uso do solo. O texto parece simples demais e gera interpretações difusas que recomendam espera pelos novos debates.

DÉCIMO-SÉTIMO POTO

O 17º ponto sugere a elaboração de código regional para gerir resíduos sólidos urbanos, que abarcaria alternativas locacionais para disposição final; centrais de tratamento; inventário das fontes geradoras com a universalização e modernização da coleta diferenciada e seletiva; programa para redução e reciclagem de resíduos hospitalar, industrial, domiciliar e de construção civil; programa para recuperação de áreas degradadas e também de educação ambiental. Como se vê, o melhor dos mundos no setor.

DÉCIMO-OITAVO PONTO

O 18º ponto trata da existência de enchentes e de áreas urbanas inundáveis e projeta um plano regional de macrodrenagem que privilegia, além das obras dos canais de retenção, instrumentos de controle de uso do solo que garantam a absorção superficial e dispositivos de retenção e infiltração de águas pluviais. O texto é assim mesmo, de parágrafo longo e complicado, mas quer dizer o fim de uma terrível complicação regional quando da chegada do verão.

DÉCIMO-NONO PONTO

O 19º ponto possibilitaria a criação da Câmara Técnica de Transporte Regional para contemplar ações no sistema viário, ferroviário, de transporte coletivo e transporte de carga. Um Custo ABC irritante. Embora o Porto de Santos seja fator estratégico do Grande ABC, porque foi na sua esteira que a região se industrializou, o texto não faz menção ao grande orgulho da Baixada Santista que se transformou em pedra no sapato da competitividade dos produtos de exportação. A omissão é grave à medida que, ainda recentemente, o secretário estadual Emerson Kapaz sugeriu a inclusão de representantes da região no fórum de debates relacionado ao porto.

VIGÉSIMO PONTO

O 20º ponto estabelece obras de acesso e transposição da Anchieta e Imigrantes, melhoramentos na Avenida dos Estados, na Rodovia Índio Tibiriçá e na ligação Mauá-Anchieta por Sertãozinho, além da agilização dos estudos para implantação do Rodoanel. Tudo isso também tem núcleo no Custo ABC.

VIGÉSIMO-PRIMEIRO PONTO

O 21º ponto prevê a elaboração de Plano Integrado Regional de Saneamento Ambiental que, nos subitens, evoca a universalização do atendimento de saneamento básico, a diminuição da poluição atmosférica, a viabilização de sistemas alternativos para recuperar resíduos industriais e o mapeamento e atendimento prioritário de áreas que apresentam riscos de insalubridade, especialmente nas áreas de proteção dos mananciais, através de instalação de redes de água e esgoto. Coisa de Primeiro Mundo.

VIGÉSIMO-SEGUNDO PONTO

 O 22º enfatiza a criação da Universidade Pública do Grande ABC, com ênfase curricular na área tecnológica e na formação profissional. Nada mal para quem precisa de mão-de-obra de fato qualificada e que vai ao encontro de proposta de Abraham Kasinski, ex-comandante da Cofap, que pretende instalar algo parecido na região através da Fundação que leva seu nome. Não seria mais conveniente juntar-se a Kasinski em um projeto pragmático do que navegar nas águas da improbabilidade de o Estado exaurido, tanto quanto as Prefeituras, bancar a obra?

VIGÉSIMO-TERCEIRO PONTO

 O 23º ponto estabelece a criação do Centro de Controle Operacional Regional de Defesa Civil, inclusive com montagem de Centro de Treinamento Regional.

VIGÉSIMO-QUARTO PONTO

 O 24º ponto pretende reestruturar e integrar as ações das polícias civil e militar e guardas municipais na região. Uma tarefa complicada. Seria algo como misturar água e óleo.

VIGÉSIMO-QUINTO PONTO

 O 25º cria o Conselho Regional de Saúde. Sem mais nenhum parágrafo elucidativo, porque os debates ficam para a nova fase.

VIGÉSIMO-SEXTO PONTO

 O 26º ponto implementa o Circuito Turístico Cultural do Grande ABC. Também uma boa ideia à espera de proposições.

VIGÉSIMO-SÉTIMO PONTO

 O 27º elabora plano regional de habitação que asseguraria o retorno dos recursos do ICMS e garantiria a participação dos Municípios na gestão dos recursos gerados na região. Algo difícil porque o governo do Estado sempre fatura politicamente com as obras.

VIGÉSIMO-OITAVO PONTO

 O 28º ponto possibilitaria a dispensa de anuência prévia da Secretaria Estadual de Habitação do Estado, sempre burocrática, para empreendimentos habitacionais de âmbito exclusivamente municipais. Espera-se que não se troque a burocracia estadual pela municipal, já conhecida de todos.

VIGÉSIMO-NONO PONTO

 O 29º ponto é o que trata dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador e da semântica sobre qualidade do emprego.

TRIGÉSIMO PONTO

 O 30º ponto viabilizaria o financiamento para modernizar as pequenas empresas através da criação de fundo de aval regional. Será que os pequenos da região finalmente conseguiriam ser diferentes dos pequenos de outras praças?

TRIGÉSIMO-PRIMEIRO PONTO

 O 31º ponto, colocado a toque de caixa por causa dos debates sobre a abertura do comércio aos domingos e a qualquer hora do dia e da noite, refere-se a um plano da atividade comercial na região. O assunto é tão polêmico quanto explosivo, como mostra a matéria desta edição de LivreMercado, mas tem de ser atacado.

FASE DE NEGOCIAÇÃO

É esse conjunto de tarefas que passa a direcionar as atividades de prefeitos, vereadores, deputados, agentes sociais, sindicais e empresariais da região, além do governo do Estado e sete Secretarias. Agora se vive a fase de negociação e aprofundamento dessas propostas para se chegar ao Acordo do Grande ABC, a aterrissagem final de um voo ainda cercado de muita expectativa e tensão.

Quem melhor definiu a diferença entre a primeira fase encerrada e a segunda que se inicia foi Marcos Gonçalves, presidente do Fórum da Cidadania do Grande ABC e exímio frasista: “Acabou a lua-de-mel” — disse ele. “As Prefeituras querem aumentar arrecadação; os empresários querem reduzir a carga de impostos; os sindicalistas falam em redução da jornada de trabalho e os parlamentares se dividem em disputas partidárias” — resumiu bem o problema, em entrevista ao Diário do Grande ABC.

CONSELHO DELIBERATIVO

Quem vai dar formato final às propostas é o Conselho Deliberativo da Câmara Regional. Além do governador Mário Covas, integram o Conselho sete secretários estaduais: Cláudio de Sena Frederico (Transportes Metropolitanos), Dimas Eduardo Ramalho (Habitação), Emerson Kapaz (Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico), Fábio Feldmann (Meio Ambiente), Hugo Marques da Rosa (Recursos Hídricos), Israel Zekcer (Esportes e Turismo) e Walter Barelli (Emprego e Relações do Trabalho); sete presidentes das Câmaras Municipais: Vanderlei Siraque (Santo André), Gérsio Sartori (São Caetano), José Zito da Silva (Diadema), Hélcio Antonio da Silva (Mauá), Antonio Muraki (Ribeirão Pires), Expedito de Oliveira (Rio Grande da Serra) e o de São Bernardo, sucessor do falecido Kiyoshi Tanaka; sete prefeitos: Celso Daniel (Santo André), Maurício Soares (São Bernardo), Luiz Tortorello (São Caetano), Gilson Menezes (Diadema), Oswaldo Dias (Mauá), Maria Inês Soares (Ribeirão Pires) e José Carlos de Arruda (Rio Grande da Serra); os deputados federais Duílio Pisaneschi, Jair Meneguelli, Ivan Valente e José Augusto Ramos; os deputados estaduais Luiz Carlos da Silva, Djalma Bom, Waldir Cartola, Wagner Lino e Clóvis Volpi; cinco membros do Fórum da Cidadania (Marcos Gonçalves, Antonio Carlos Cedenho, Antonio Castilo Jato Júnior, Hélio Dênis e Sílvio Tadeu Pina); cinco representantes do setor econômico (Fausto Cestari Filho, Edson Eden dos Santos, Júlio Claus Gaspari, Mauro Machado Marcondes e Wilson Ambrósio da Silva) e cinco representantes dos trabalhadores (Aparecido Inácio da Silva, Edson Luiz Bernardes, Sérgio Novaes, Wagner de Castro e Carlos Alberto Grana).

Essa é uma múltipla composição de passageiros, tripulantes e mecânicos que tem a responsabilidade de garantir senão um céu de brigadeiro, porque não se vive de utopia, mas pelo menos soluções que recoloquem o painel de controle socioeconômico do Grande ABC a salvo de descontrole.

SETE ANOS DEPOIS

O futuro que virou presente num passado que já completou 23 anos foi retratado  em texto específico que produzi em abril de 2003 para o livro “Meias-Verdades”. Nada mais desanimador.

Sete anos depois de constituída  sob os efeitos pirotécnicos de triunfalismo econômico, politiquismo partidário e ilusionismo integracionista, a Câmara Regional do ABC é um dos maiores blefes institucionais da história regional. Só pode ser comparável, por isso, ao Fórum da Cidadania do Grande ABC. A cronologia dos noticiários inseridos neste livro é um fragmento da montanha de espumas de propostas que não resistiram aos fatos.

Provavelmente com o fracasso da Câmara Regional, o Grande ABC perdeu a maior oportunidade da história para costurar, de fato, um tratado que o transformasse numa unidade institucional com amplos avanços sociais e econômicos. O ambiente que se criou em torno da Câmara Regional era mais que justificado para se aguardar resultados extraordinários.

FRACASSO E ESVAZIAMENTO

É mais que provável que não exista símbolo maior do estrondoso fracasso da Câmara Regional do que o paralelismo de promessas e desvarios e o mais inquietante e acovardado processo de esvaziamento econômico que uma região já conheceu no País: o Grande ABC de 1997 a 2002 acumulou série de perdas econômicas que o remete entre a cruz do desemprego crônico e estrutural e a caldeirinha da absoluta ausência de projeto econômico estratégico.

O errático desempenho da Câmara Regional, em que pese toda a boa vontade de parte da mídia em amenizar os tropeços, está nas contradições de vários de seus membros. Dependendo dos interesses dos interlocutores, tanto a Câmara do ABC poderia estar perto do paraíso como à beira do inferno. O lamentável é que a segunda versão acabou se consolidando gradualmente.

Antes de completar seu sétimo aniversário de criação, a Câmara Regional é um cadáver insepulto. Como há agentes sociais, econômicos e políticos no Grande ABC que cultivam mistificações para proveito próprio, não é de todo improvável que tenham a ousadia de programar festejos da iniciativa que parecia, finalmente, incrementar as relações entre a comunidade regional e o governo estadual.

NADA CORRELACIONADO

Os elevados investimentos das montadoras de veículos e de autopeças que restaram no parque industrial do Grande ABC não têm qualquer relação com as declarações do então vice-presidente da Anfavea Mauro Marcondes Machado. Os recursos para modernizar plantas industriais, processos e qualificação de mão-de-obra foram resultado de decisões estratégicas que ultrapassam — como sempre — a geografia regional. Foram medidas de competitividade internacional as quais o parque automotivo da região teve de recorrer para se sustentar num quadro de descentralização produtiva em direção aos mais variados Estados da Federação.

Nenhuma política específica para o Grande ABC proteger-se economicamente a bordo da globalização foi deflagrada por qualquer instância governamental. Por isso a agudeza das perdas econômicas ainda não chegou ao fundo do poço.

O consenso em torno de um plano estratégico para o Grande ABC não saiu do papel durante todo esse período e nem mesmo pode ser catalogado seguramente como importante antídoto à frouxidão econômica. Os diagnósticos que resultaram dos encontros apresentaram viés excessivamente burocrático e estatal. Os grupos de técnicos e representantes da sociedade que se debruçaram em busca de soluções regionais no período inicial da Câmara Regional tinham em larga escala relações com as prefeituras.

INICIATIVA PRIVADA

Jamais foi corrigido o contrassenso de bloquear ou pelo menos não se lembrar de agentes da iniciativa privada especialistas em regionalidade para focar o plano estratégico sob ângulo de competitividade regional no sentido econômico da expressão.

Não teria sido mais que sensato juntar especialistas do Poder Público e da livre iniciativa para desenhar um Grande ABC do futuro que não fosse nem romântico nem pragmático demais? Enfim, o que se poderia extrair da associação dessas duas metades da laranja desenvolvimentista seria um caldo de conhecimentos específicos que se tornariam mútuos e imantados de possibilidades de sucesso.

Mesmo sob estrutura técnico-operacional quasímodo, a Câmara Regional do ABC poderia ter tido melhor papel na inserção do Grande ABC na globalização desmedida do governo Fernando Henrique Cardoso se contasse com o aparato político-institucional desejado. Sempre foram tortuosas as relações entre governos municipais, sociedade e governo estadual de frondosas e estanques ramificações em forma de secretarias. Exceto nos raros encontros em que o Conselho Deliberativo da entidade se reunia com pompa e circunstância — vendendo uma unidade cuja solidez fazia concorrência à seriedade das estatísticas policiais –, a operacionalidade das questões mergulhava nas águas turvas de idiossincrasias partidárias.

IGNORÂNCIA E ESPERTEZA

A ignorância com relação à realidade factual do Grande ABC se misturava com a deliberada disposição de esconder sob o tapete de falsos números econômicos uma região já em processo de atomização produtiva. O enunciado, em 1997, de que o Grande ABC não passava por problemas semelhantes aos de tradicionais centros econômicos da Europa onde indústrias fecharam as portas e mudaram de endereço, soava como frase típica de Casseta & Planeta.

A toada de fragilização econômica que se iniciou especificamente em Santo André e São Caetano na metade dos anos 70 e colheu os demais municípios locais a partir da segunda metade dos anos 80 não poderia permitir tamanhas sandices. Mas em 1995 e 1996, sob efeito do Plano Real, o Grande ABC recuperava pontualmente parte das perdas de participação da geração de riqueza no Estado de São Paulo. Foi o suficiente para os trombeteadores da fortaleza inviolável fazerem estardalhaço. 

GUERRA FISCAL

Esqueceram esses plantonistas da alegria efêmera que os artificialismos do Plano Real não resistiriam às cobranças de reformas estruturais que o governo Fernando Henrique Cardoso protelou ano após ano e à volúpia do sistema financeiro internacional. Mais que isso: perderam a percepção de que jamais em toda a história da indústria nacional houve tanta disputa por investimentos como nos anos 1990. A guerra fiscal, sob vistas grossas do governo federal, passou a repactuar critérios de competitividade. Assim, endereços mais antigos e de conquistas trabalhistas mais pronunciadas ingressaram na lista de indesejáveis.

O sarcasmo dos arautos da felicidade circunstancial chegava ao requinte de disfarçar o estado latente de depauperação da qualidade de vida no Grande ABC. Usavam frases de efeito quando a própria criação da Câmara Regional do ABC consagrava o estado de emergência já latente.

Entre as desavergonhadas posições analíticas de documentos oficiais da Câmara Regional constava a negação do esvaziamento e o endeusamento dos investimentos do setor terciário. A chegada de grandes conglomerados comerciais à região, numa sequência tão avassaladora quanto arrasadora, foi a extrema unção dos pequenos negócios.

POLITICAMENTE CORRETO

Brincou-se até mesmo com a situação do desemprego já ostensivamente impressionante em 1997, sobrevalorizando-se o que equivocadamente as lideranças sindicais — e depois outros setores da sociedade, todos dispostos a mimetizar o politicamente correto — alardeavam como mão-de-obra qualificada da região. Como se fosse possível fazer carroças com gente tecnologicamente qualificada, o Grande ABC viveu a ilusão de que tinha operários de ponta. Eram simplesmente especialistas em apertar os parafusos de então.

A abertura econômica e sobretudo a aplicação do Plano Real em 1994, combinado com a chegada de novas empresas do setor de montadoras e autopeças, recolocaram a verdade no devido lugar: cultura de mão-de-obra industrial é uma coisa, qualidade dessa mesma mão-de-obra é outra. O Grande ABC contava exponencialmente com a primeira, mas estava na periferia da qualificação num confronto mundializado, que é o que imperava nas avaliações de custo/benefício das empresas.

Tanto estava na era da pedra lascada em matéria de habilitação manufatureira que o Grande ABC dos últimos sete anos viveu extraordinária revolução no chão de fábricas. Novas metodologias, novas tecnologias, novos processos, tudo se tornou novo. Milhares de horas de treinamento e reciclagem envolveram operários e gerentes que conseguiram escapar da degola. Só nos anos 90 nada menos que 100 mil empregos industriais com carteira assinada foram decepados. Uma parte, apenas uma parte, encontrou espaço nas autopeças. Outra parte bandeou-se para a fermentação de pequenos negócios industriais e, em maior escala, do terciário. A maioria ficou desempregada.

ADEUS EMPREGO

Quem perdeu emprego industrial no Grande ABC nos anos 1990, sobremodo no epicentro das mudanças entre 1994 a 1999, dificilmente conseguiu recolocação nas montadoras e nas autopeças, coração da economia regional. Os apertadores de parafuso do passado, como se designavam os trabalhadores que atuavam como peças fixas nas linhas de produção, só se tornaram especialistas em funções múltiplas se não entraram na lista de demissões. Nem de longe a compactação do quadro de trabalhadores lembra o efeito sanfona de tempos de mercado fechado, quando a redução se dava por causa da sazonalidade de uma crise macroeconômica que, superada, permitia a recontratação dos demitidos. O que se verifica na atividade industrial, especialmente na área automotiva, são demissões a rodo; ou seja, são medidas que enxugam departamentos gerenciais e cortam divisões operacionais.

Outra balela vendida como projeto foram os supostos financiamento às micros e pequenas empresas. Nada mais falso. Exceto os raros casos em que o BNDES conseguia ser acionado pelos próprios empreendedores, sem intermediação da institucionalidade regional, o que se praticou no Grande ABC durante todo esse período — como nos anteriores — foi o jogo bruto de Golias contra Davi. A diferença é que, contrariamente à passagem bíblica, na vida real Golias é praticamente imbatível.

Pressionadas por falta de escala, pela obsolescência, pelos novos parâmetros de custos definidos pelos clientes de grande porte, pela falta de capital de giro, pela extorsiva e crescente carga tributária, pelas próprias limitações gerenciais, entre tantos e tantos problemas, as pequenas e médias indústrias do Grande ABC viraram estatística de deserção, de falência ou de absorção pelo capital estrangeiro.

PREMONIÇÃO INVERSA

O caminho sem volta alardeado em tom de esperança pelo governador Mário Covas em julho de 1997 se reveste de uma premonição, até prova em contrário, do avesso do intentado. O Grande ABC daquele ano — em que algumas frases de inquietação apareciam entre as cataratas de proselitismo — estava social e economicamente menos entregue às baratas do que neste 2003. As sucessivas perdas de participação absoluta e relativa numa economia estadual que também perde vigor frente a concorrentes do País e o contexto de um País que nem de longe vive a euforia do Plano Real indicam luzes vermelhas na pista de decolagem.

Poucos dias depois das declarações de Mário Covas, o então coordenador do Fórum da Cidadania, Marcos Gonçalves, num rasgo de franqueza e realismo, parecia adivinhar o que viria no mapa astral da Câmara Regional. Ao alinhar as contradições do projeto de consenso que opunham interesses distintos e conflitantes de importantes instituições que dividiam os assentos da Câmara Regional, Marcos Gonçalves quebrava um ambiente de oba-oba oficial. Se tivesse tido a mesma independência e sensibilidade na avaliação do próprio Fórum da Cidadania do Grande ABC, que também comandou, seria possível abortar o trajeto em direção a um obstáculo só aparentemente insuperável — a ilusão de que palavras podem substituir ações.

Nem ilusionismo nem marketing pelo marketing, como ficou provado. Por melhor que seja o quadro de especialistas em marketing no Grande ABC — e há profissionais capazes de participar de grupos multilaterais –, também nada resiste à simples exposição de enunciados. A importância de vender um Grande ABC diferente do que se apresenta como realidade é uma velha e surrada fórmula de colocar o carro à frente dos bois.

E OS ESPECIALISTAS?

No mínimo, o que se pretende como ferramenta de valorização de um determinado ambiente urbano é que haja a mensuração cuidadosa de pontos positivos e negativos para que as atividades que se seguirem não caiam no buraco profundo do sensacionalismo sem responsabilidade. À falta de um grupo de especialistas em diagnosticar a imagem interna e externa do Grande ABC e, em seguida, encetar planejamento, propostas e ações para ampliar os fatos positivos e metralhar os fatos negativos, o que se fez foi um teatro de operações de amadores.

Sim, substituíram-se os marqueteiros de profissão por agentes econômicos, sociais e políticos submetidos à lógica transversa de que, supostamente com credibilidade no mercado de informações, tudo que dissessem seria automaticamente solidificado como verdade. O que importava nessa segunda metade da década dos anos 90 no Grande ABC era combinar frases de efeito com profusão de propostas de desenvolvimento econômico sustentado. Pouco se lixavam para a simetria entre promessas e realizações.

Para acentuar ainda mais o clima de grandiloquência, uma antiga deformação congênita da sociedade regional passou a atacar intensamente os agentes envolvidos: o Complexo de Gata Borralheira. Sim, era indispensável que se mostrasse internamente que o Grande ABC estava unido e externamente que a vizinha e sempre mais glamourosa Capital admirasse essas plagas como exemplo a ser seguido. Chegou-se, com isso, ao paroxismo do gataborralheirismo com as consequências inevitáveis: postergou-se uma série de medidas de caráter emergencial em nome de torrenciais elucubrações verbais.

DISCURSOS AMBÍGUOS

O estabelecimento da questão do desemprego como prioridade número um do Grande ABC, em 1997, já denunciava uma realidade latente que discursos ambíguos negavam. Medidas paliativas não faltaram para amenizar o quadro, como os cursos de reciclagem e de recolocação profissionais. Muito pouco diante das fundas transformações que ocorreram ao longo da década e continuam a ocorrer no Grande ABC. O que está comprometido no cenário regional não é o efeito do desemprego epidêmico, mas a estrutura econômica excessivamente dependente do setor automotivo. O que gerou desenvolvimento e qualidade de vida no passado acabou se transformando em pesadelo.

O prêmio da Fundação Getúlio Vargas conquistado pela Câmara Regional do ABC exibe a vulnerabilidade de determinados programas que pretendem valorizar ações voltadas à cidadania. Ficou evidenciada a pressa em condecorar uma ação de integração regional combinada com aproximação do governo do Estado. Bastava uma atenta leitura das idas e vindas do noticiário da Câmara Regional para flagrar a flacidez das relações de diferentes agentes políticos, empresariais e sociais. A premiação revelou, pelo menos, uma competência regional: é possível ultrapassar o cerco discriminatório à Gata Borralheira. Basta que se comporte como Cinderela. Mesmo que tudo não passe de prestidigitação.

Oito meses depois da notícia da premiação da Fundação Getúlio Vargas, a prefeita de Ribeirão Pires, Maria Inês Soares, agora coordenadora-geral da Câmara Regional, vazava oficialmente o desencanto com o desempenho da entidade. Ao fazer pregação pelo “necessário” em vez do “possível”, Maria Inês recorria a uma tática suavizadora do desencanto que já cercava muitos dos integrantes da Câmara Regional: os resultados não apareciam na profusão das propostas e os problemas sociais e econômicos, sempre escanteados, afetavam mais e mais a vida da população regional, com subidas permanentes dos índices de desemprego e de criminalidade.

FIESP AUSENTE

Pouco mais de um mês de Maria Inês entregar a rapadura de que a Câmara não era uma Brastemp, um novo factoide ajudava a confundir o quadro: o anúncio do reforço da Fiesp de Horácio Lafer Piva. Há quatro anos a entidade piramidal da Avenida Paulista integra o Conselho Deliberativo da Câmara Regional, mas Piva jamais participou, nesse período, de uma única reunião da instância. Não se deve execrá-lo, porque apenas poucos dos membros efetivamente se apresentam nesses encontros.

Antes que março de 1997 de adesão de Horácio Lafer Piva terminasse, o polêmico Filipe dos Anjos Marques, então presidente da Associação Comercial e Industrial de Diadema e integrante do Fórum da Cidadania, empunhava o facão da quebra de protocolo e traduzia numa linguagem bem mais incisiva e pouco cerimoniosa do que Maria Inês Soares o conceito que a Câmara Regional lhe impregnava. Disse com todas as letras uma palavra que começava a aterrorizar lideranças da Câmara Regional: descrédito. Havia muito tempo a chamada sociedade civil afastava-se da Câmara Regional, mas ninguém se apresentou com independência para denunciar.

Cinco meses depois, editorial do Diário do Grande ABC procurou atenuar os estragos de Filipe dos Anjos Marques com louvação ao futuro do Grande ABC baseada nas propostas da Câmara Regional. O jornal não estava sozinho na tentativa de salvamento. O artigo do especialista em indústria automobilística Glauco Arbix, na Folha de S. Paulo, também infiltrou nas veredas do otimismo, mas provavelmente por motivo diferente: o professor da USP conhecia e conhece o dia-a-dia do Grande ABC apenas por ouvir falar e por eventuais encontros com acadêmicos e sindicalistas aos quais nem sempre interessa comentar tropeços institucionais e corporativos.

PASSATEMPO FICCIONAL

A matéria que complementa essa rápida historiografia da Câmara Regional, publicada pelo Diário do Grande ABC no final de 2002, é o coroamento dos descaminhos e um encontro das águas da verdade que diferentes corporações fizeram das tripas coração para negar: a Câmara Regional foi um passatempo ficcional que jamais esteve à altura da intrincadíssima realidade regional. Mais que isso: na medida em que surgiu no cenário institucional da região como salvação de lavoura e ganhou sobrevida de mistificações, mais atrapalhou do que contribuiu para a reação que tanto se exige de um território bombardeado pelas desídias do governo federal, pelo faz-de-conta do governo estadual e também pela pouca apetência econômica dos governos municipais.

O desmascaramento da Câmara Regional é, acima de tudo, uma iniciativa que pode recolocar o Grande ABC no ringue da competitividade regional, onde a luta é intensa, sangrenta, mas muito melhor que simplesmente estar estatelado fora do ringue, como está de fato hoje.

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