Economia

VEM AÍ UM VEXAME DO
NOSSO PIB PER CAPITA

  DANIEL LIMA - 26/03/2025

Senhoras e Senhores, distinto público! Preparem os corações porque no Majestoso  Circo do Grande ABC, onde o que interessa é a espetacularização política a cada novo dia, a cobra vai fumar. Se não for nesta temporada, será na próxima, mas está com todo o jeito de ser nesta.  O picadeiro que se apresenta tem entre outras atrações, as cambalhotas do  PIB per capita de três das maiores cidades da região. O trio terá a riqueza produzida em produtos e serviços -- dividida pela população -- superada pelo PIB per Capita do Brasil Varonil. Isso mesmo: essa coisa letárgica chamada Brasil,  que desafia o mundo pela capacidade de especializar-se em voo da galinha. Ou seja: sobe agora, sobe mais um pouquinho adiante e, para surpresa de ninguém que tenha juízo, derrapa fragorosamente.

Já imaginou nada menos que três poderosas cidadelas da região batidas pelo Brasil econômico molambento? E outras duas, também poderosas, dão sinais evidentes de fadiga de material. As outras duas, complementares e menores, já são inferiores ao País.

Não vejo outra situação para anunciar antecipadamente uma catástrofe numérica que só confirma o que escrevo neste endereço há 35 anos: perdemos o empuxo de crescimento e colecionamos derrotas sobre derrotas. E desta vez a derrota será mesmo vexatória, porque ficar atrás da média brasileira do PIB per capita é um acinte.

JÁ CONSUMADO

Mas não há como negar que merecemos tudo isso. Afinal, somos uma sociedade cada vez mais inerte, incapaz de reagir diante das maiores tapeações dos últimos tempos. É claro que me refiro ao Clube dos Prefeitos, com nova turma e, pior que as anteriores, com uma vocação terrível ao marketing político varejista. Vai conseguir superar a herança maldita da turma então chefiada pelo prefeito Paulinho Serra. Perdemos até para Sapopemba na luta contra o Coronavírus. É bonito isso?

O PIB per capita que registraremos possivelmente nos próximos dias será um PIB per capita mais próximo do PIB per capita brasileiro ou, provavelmente, inferior. Um ou outro resultado, de fato, não vai fazer diferença. O vexame se dará de qualquer forma.

Aliás, o vexame já se deu. Só a aproximação dos números médios nacionais com os números dos municípios locais ameaçados de perder a disputa já é uma prova coletiva de que a regionalidade do Grande ABC é uma falácia e o municipalismo uma indecência no campo econômico.

Manchetes de jornais que chamam de regionalidade a burocracia numérica dos integrantes não movem os moinhos da competitividade econômica. Distante disso. Só servem para engambelar os incautos.

Se manchetes de jornais significassem realidade para valer o Grande ABC seria, há 35 anos, desde que o Clube dos Prefeitos foi criado, uma referência internacional. Diferentemente disso, somos uma Detroit à Brasileira. Um convite ao choro consorciado.

As cidades ameaçadas de ultrapassagem pelo PIB médio por habitante do Brasil estão na marca de tiro mesmo. Santo André, Diadema e Mauá perdem tanto terreno, nessa comparação -- e em tantas outras que envolvem a economia local -- que a toada dificilmente será interrompida ou abrandada. Como está se estreitando cada vez mais a diferença entre o PIB médio do Brasil e o PIB per capita desses três endereços da região, provavelmente chegaremos ao fim da estrada já nesta temporada.

Vejam o caso de Santo André que, em 2002, registrou em valores nominais PIB per capita de R$ 12.978,00 mil. Fernando Henrique Cardoso estava deixando a presidência da República. Na ponta dessa comparação, com números já apurados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), válidos para 2021, o PIB per capita de Santo André registrou R$ 46.957,00 mil. Não se esqueça que esses são valores monetários nominais que desprezam a inflação. Por enquanto também vamos esquecer.  Agora vejam o comportamento do PIB per capita nacional no mesmo período: a média nacional era de R$ 8.306,67 mil em 2002 e passou para R$ 42.893,72 em 2021.

PERDENDO PARTICIPAÇÃO

Façam as contas e notem que o PIB per capita médio dos brasileiros representava 64% do PIB médio de Santo André em 2002, e passou, 19 anos depois, para 91,34%. Ou seja: a diferença de 36% favorável a Santo André caiu para 8,66% na ponta da tabela temporal.

Agora peguem o exemplo de Diadema. Em 2002, último ano de FHC, o PIB per capita de Diadema registrava também em valores nominais R$ 11.937,00. Na ponta da comparação, em 2021, passou para R$ 45.573,00. Compare agora com a média nacional, como o fizemos com Santo André. O PIB médio brasileiro representava,  em 2002,  69,59% do PIB médio por habitante de Diadema. Já em 2021 a participação relativa  chegou a 94,12%.

Vamos agora ao terceiro caso de ameaça mais que evidente de ultrapassagem humilhante. Trata-se da comparação entre o PIB per capita de Mauá em 2002, de R$ 10.366,00 mil,  com os números já mencionados do Brasil (R$ 8.306,67) e os dados de 2021, quando Mauá registrou PIB per capita de R$ 44.840,00 mil. Conclusão: a diferença favorável a Mauá praticamente se esgotou. A participação  do PIB médio brasileiro em 2002 de 80,13% aumentou  para 95,66%.

DUAS EXCEÇÕES

Somente São Bernardo e São Caetano não correm risco de ver o PIB médio brasileiro repetir a trajetória de humilhação nos próximos tempos. No começo do século, em 2002, São Bernardo contava com PIB per capita nominal de R$ 21.390,00 mil. Muito acima, portanto, dos R$ 8.306,67 da média nacional. A participação brasileira em 2002 de 38,83% no PIB de São Bernardo aumentou para 59,99% em 2021 porque a Capital Econômica do Grande ABC registrou PIB per capita de R$ 71.496,00 mil, ante R$ 42.893,72 mil de 2002.

O caso de São Caetano também não pode ser minimizado. Em 2002, a diferença do PIB per capita em relação à média brasileira era elevadíssima. A participação do PIB per capita médio do País era de 18,62% ante São Caetano. Dezenove anos depois passou para 41,63%. O PIB per capita de São Caetano perdeu feio para a inflação do período. Em valores nominais, representava R$ 44.594,00. Praticamente o dobro de São Bernardo e pouco mais de cinco vezes da média nacional. Em 2021, o PIB per capita de São Caetano passou em termos nominais para R$ 103.015,00, ou apenas 131,00% de avanço ante a inflação que, no período, registrou 200,03%. 

MUITO MAIS CRESCIMENTO

O estreitamento geral favorável à média brasileiro no critério de PIB per capita está caracterizado na larga distância de crescimento nominal entre os concorrentes.  O PIB per capita médio dos brasileiros avançou 416,38% ao longo de 19 anos, sempre sem considerar a inflação do período, enquanto São Bernardo registrou apenas 234,25%, Santo André 261,82%, São Caetano escandalosos 131,00%, Diadema 281,78% e Mauá 332,57%. Ou seja: todos perdem para a média nacional.

Alguém tem alguma dúvida de que o pano de fundo desses números de longa distância e, portanto, livres de sazonalidades de curto prazo, tem a ver com a ausência de competitividade da economia regional? Absolutamente nenhum Município do Grande ABC superou a média de crescimento per capita do PIB brasileiro. A maioria apanhou feio.

Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que representam pouco mais de 2,5% do PIB Geral do Grande ABC,  são superadas pela média nacional há muito tempo. O PIB per capita de Ribeirão Pires saiu de nominais R$ 6.719,00 mil em 2002 e chegou a R$ 32.605,00 mil em 2021, com crescimento nominal de 385,26%. Já a pequenina Rio Grande da Serra saiu de um PIB per capita de R$ 3.755,00 mil em 2002 e passou para R$ 19.095,00 mil em2021, com crescimento nominal de 408,52%. Quase tanto quanto a média nacional. 

DOSE DUPLA

O PIB dos Municípios Brasileiros é divulgado em dezembro de cada ano, sempre com dois anos de atraso. Entretanto, na temporada passada houve mudança. O IBGE anunciou que divulgaria os dados somente em janeiro deste ano, incorporando algumas alterações. Entre as quais o PIB dos Municípios revelaria os dados de 2022 e 2023.

A tradição de anunciar o PIB dos Municípios sempre com dois anos de defasagem estaria sendo rompida. A medida tornaria mais interessante a organização dos circuitos de competitividade. Entretanto, uma crise no comando técnico do IBGE frustrou a expectativa. É possível que somente em abril sejam conhecidos os números de 2022 e 2023.

De qualquer modo, como o PIB Nacional não sofre atraso, divulgado que é geralmente nos dois primeiros meses do ano posterior às atividades, conhece-se o PIB per capita do Brasil, inclusive da temporada de 2024.

Quando o PIB per capita do Grande ABC de 2022 e 2023 for conhecido, tudo estará resolvido em termos de confronto com os dados nacionais. O PIB per capita do Brasil, relativo ao ano de 2023, alcançou R$ 51.694,00. Isso significa crescimento nominal de 20,51% acima dos números de 2021, de R$ 42.893,72%. É muito pouco provável que o Grande ABC obtenha, nesses mesmos 24 meses, algo semelhante.

E é nesse ponto que a casa de Santo André, de Mauá e de Diadema vai cair.  Qualquer situação diferente dessa projeção será uma surpresa. Afinal, enquanto o Brasil mal ou bem tem pesos e contrapesos econômicos como a agropecuária e o setor petrolífero para manter crescimento mesmo que medíocre, o Grande ABC segue dependendo da indústria automotiva cada vez mais pressionada pela concorrência nacional e internacional.

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