Política

Paços de cristaleira,
vulcão e arapuca

  DANIEL LIMA - 15/04/2024

O Paço Municipal de Santo André virou espécie de cristaleira. O Paço Municipal de São Bernardo é um vulcão prestes a entrar em erupção. E o Paço Municipal de São Caetano é uma arapuca em potencial. Todos esses formados imaginários têm relação direta com as eleições de outubro próximo. Você vai entender em mais uma análise especulativa que faço. Quem faz análise absolutamente ajustada aos fatos em tantas outras áreas pode se dar ao luxo de especular. E de avisar que está especulando. Tenho pelo menos 50% de possibilidades de acertar.

O que quero dizer com as metáforas acima é que os incumbentes desta temporada correm riscos de não fazerem sucessores. Mas uns correm mais riscos que outros.

O O jogo em São  Bernardo é de resultado indefinido. Daí o vulcão prestes a fumegar. Em São Caetano aparentemente tudo está decidido, mas é melhor praticar um pouco de cautela porque há arapuca a espreitar os concorrentes. Em Santo André, a botafogada colocou tudo a perder no sentido de que nada está encaminhado. Botafogada e cristaleira tem tudo a ver. A fragilidade situacionista em Santo André é de espantar. E pode piorar.

Quer começar por onde? Pelo mais complexo ou pelo mais simples? Qualquer um? Então vamos começar pelo aparentemente mais simples: por São Caetano da arapuca.

GABINETE PARALELO

A formação da chapa Tite Campanella -Regina Maura Zetone, uma costura que vai além do Paço do prefeito José Auricchio, parece perfeita. Mas não é. Há desconfianças. Existe um grupo que já está atuando em paralelo em nome do time oficial e que estaria decidindo nomes que ocupariam as secretarias municipais  assim que Tite Campanella tomar posse, em janeiro do ano que vem.

A força desse grupo tido como pirata não parece desprezível. Reuniria gente que não é próxima da gestão de José Auricchio e que, por isso mesmo, feriria pré-acordos. Gente que não aparece é gente mais problemática do que gente que aparece, porque é utilizada como sensores e censores de quem está no poder. Mas, conforme o andar da carruagem de ações, pode queimar o prestígio de quem está no poder ou pretende estar no poder.

Tite Campanella já teria sido obrigado a fazer desmentidos. Mas os desmentidos de Tite Campanella quanto à velocidade de tratativas à formação do secretariado carrega desconfianças. Não falta quem garanta que Tite Campanella deu sinais positivos à empreitada paralela. Outros dizem que tudo não passa de especulação e maldade.

CHAPA SOB SUSPEITA?

Também não faltam idiossincrasias que colocam Tite Campanella e o prefeito José Auricchio em polos opostos. Eles se tolerariam em nome de acordos mais amplos, abrangentes e indispensáveis.

José Auricchio teria se fragilizado tanto durante o ano que ficou fora do cargo, cassado preliminarmente pela Justiça Eleitoral, que teve de fazer concessões que agora seriam executadas.

Entre essas concessões estaria até mesmo o cargo de prefeito, entregue a Tite Campanella numa vitória eleitoral dada como certa. Composições internas e externas teriam levado à configuração aprovada e confirmada na semana passada.

Todo essa emaranhado de informação tem consistência segura e também consistência questionável. As partes envolvidas contam com versões diferentes e quase sempre inconciliáveis. Certo é que há um turbilhão nos bastidores da política de São Caetano. Não houvesse o governador do Estado, Tarcísio de Freitas, supostamente apoiando Tite  Campanella, numa composição bolsonarista numa cidade bolsonarista, o quadro seria ainda mais complexo.

AMBIENTE DE EXCESSOS

Mas o que está levando muitos atores da cena política de São Caetano à exaustão emocional é o secretariado paralelo, quando não o gabinete paralelo, que estaria sendo coordenado por uma mulher íntima do poder local. Ela estaria se reunindo com vários potenciais secretários em nome de Tite Campanella.

O ambiente de já-ganhou e consequentes distribuição de cargos antes mesmo de as urnas serem abertas poderia afetar a própria campanha de Tite Campanella, que tem tomado providências para negar as informações.

Chega-se a tamanho ponto de conflitos de bastidores que até mesmo a candidatura de Tite Campanella seria colocada em risco, já que existe tempo de sobra até a confirmação da chapa. As conveniências engendradas para derrotar o principal adversário não parecem ter um desfecho seguro.

PALACIO NA EXPECTATIVA

Já o único opositor com alguma força para vencer as eleições, Fabio Palacio, está à espreita pronto para dar o bote. Que bote? De utilizar a disputa pelo poder dos favoritos da disputa como apressados demais, em desrespeito às urnas.

A tradução de tudo isso, independentemente das nuances, é que em São Caetano nem tudo que parece tranquilidade eleitoral é tranquilidade eleitoral de verdade. Há camadas subterrâneas de descontentamentos que dialogam com potenciais dissidências.

Seria ingenuidade que a cidade da região com mais receita orçamentária por habitante não passaria por estresses eleitorais. Resta saber qual o volume e o destino. Fabio Palacio está atento. Praticamente descartado da disputa para valer, pode ganhar fôlego.

DOSAGEM DE MORANDO

Em São Bernardo a questão é de dosagem, que separa remédio de veneno. O prefeito Orlando Morando tem a sobrinha Flavia Morando para capturar o enorme prestigio popular. Até aí, tudo perfeito. Não haveria, supostamente, nada que indicasse um vulcão no Paço Municipal.

O problema é saber controlar o ímpeto do ex-vice-prefeito e ex-deputado Marcelo Lima, que também se lançou à disputa. Uma parceria informal entre as duas candidaturas estaria em risco caso haja desequilíbrio demais entre Flavia Morando e Marcelo Lima. Mais que isso: como Orlando Morando estaria prestigiando mais a sobrinha do que o ex-vice-prefeito de dois mandatos, surgem nichos de descontentamento. Calibrar essa equação é um desafio ao prefeito que já tem com que se preocupar, no caso as candidaturas de Alex Manente e Luiz Fernando Teixeira, que correm em raias separadas mas flertam ajuntamento no mais que provável segundo turno.

Não faltam adversários que querem ver o vulcão fumegante no Paço Municipal. E para isso, segundo avaliações, bastaria que Marcelo Lima se afastasse de uma disputa com viés colaborativo no segundo turno, considerando-se a possibilidade de Flavia Morando chegar lá.

DESTINO DE MARCELO

Sem Marcelo Lima como parceiro de segundo turno, a candidatura de Flavia Morando poderia encontrar mais resistência. Principalmente se Marcelo Lima Manente e Luiz Fernando se juntarem. Essa equação obedece a lógica da política, onde os meios justificam os fins. Ou os fins justificam os meios?

Até agora a estratégia de Orlando Morando escalar a sobrinha para a disputa da Prefeitura de maior orçamento absoluto da região é avaliada como jogada de mestre. Mas há condicionante quanto ao potencial de  votação de Marcelo Lima com a dobradinha extraoficial com Flavia Morando. Ir para um segundo turno com duas candidaturas de cada lado, do centro e da esquerda, é uma coisa. Ir para o segundo turno contra três candidaturas, é outra coisa.

DANOS EM SANTO ANDRÉ

Em Santo André o quadro é tormentoso para o prefeito Paulinho Serra O Paço Municipal virou uma cristaleira em casa recheada de meninos travessos. Alguns danos já foram contabilizados. Outros estão no horizonte próximo.

A mais que provável escolha do secretário de Saúde Gilvan Junior como candidato do Paço será o complemento do fogo no parquinho, como a oposição observa a situação nas redes sociais.

A demora em oficializar Gilvan Junior vai muito além do calendário de aniversário de Santo André, como tem dito o prefeito na tentativa de enganar o povo sem ser a Globo. Trata-se simplesmente dos efeitos colaterais que a medida deflagraria.

Não bastassem os danos até agora, entre os quais, e principalmente, a rebeldia do vice-prefeito Luiz Zacarias, que lançou candidatura e se tornou o maior opositor do Paço Municipal.

A indicação de  Gilvan Junior poderá levar mais lenha na fogueira de dissidências e estridências. Não faltam aliados que se sentiriam traídos por terem sido preteridos por um jovem surpreendentemente levado à condição de suposto herdeiro dos votos de Paulinho Serra.

Santo André é um ambiente eleitoral em transe. As redes sociais registram reações destrambelhadas do Paço Municipal na tentativa de tirar Luiz Zacarias da condição de vítima, alçando-o a de vilão.

Um vídeo colocou o vice-prefeito como assediador de mulheres sem que nada, nenhuma imagem, nenhum documento, absolutamente nada, corroborasse o ataque.

REDES SOCIAIS

Outro vídeo colocou Zacarias como incomodo em evento público que reuniu o governador Tarcísio de Freitas quando, para valer mesmo, o que se vê e o que se destaca é a hostilidade verbal do prefeito ao se dirigir com olhos raivosos ao vice-prefeito.

Talvez o vice-prefeito opositor das escolhas do prefeito esteja sendo orientado a preparar armadilhas que o convertem em vítima preferencial. Até agora, o adversário está perdendo a batalha das redes sociais. A imagem de bom moço de Paulinho Serra já foi arranhada.

Resumo de todas essas óperas: cada plano de voo dos incumbentes em Santo André, São Bernardo e São Caetano  precisa ser observado com atenção. Mais que isso: precisa passar por monitoramento constante. Nem tudo que se desenha como ideal segue ideal quando a velocidade do tempo da disputa eleitoral se acelera no ritmo de ocorrências imprevisíveis.

Fazer sucessor em Santo André e em São Caetano é muito mais fácil e provável do que em São Bernardo metade vermelha, metade amarela. Em São Caetano, então, é uma mamata. Uma cidade conservadora não mexe sem desconfiança nas pedras sucessórias ao gosto do freguês e mesmo de supostas demandas necessárias.

TONALIDADES DIFERENTES

Em Santo André, menos vermelha que São Bernardo e menos amarela que São Caetano, o prefeito reeleito e sem poder concorrer só não pode ser arrogante e achar que o jogo delineado nos gabinetes é uma preliminar da vitória nas urnas. Paulinho Serra tem errado demais na tática e já comprometeu a estratégia. Agora precisa buscar novos direcionamentos, cada vez mais complexos.

Em São Bernardo, exceto de o prefeito Orlando Morando contar com dados sigilosos sobre o potencial de votos de Flávia Morando, muito acima dos demais candidatos, o alinhamento com Marcelo Lima parece incontornável ao sucesso nas urnas.

Detentores de 70% do PIB da região, Santo André, São Bernardo e São Caetano vivem dias de tensão. Que se avolumarão até outubro. Nesta semana pode haver mais novidades. Mais perdas na cristaleira, primeiros rumores do vulcão em erupção e uma armadilha mais identificada e comprovada? É melhor esperar.

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