Economia

Desindustrialização é maior
na Capital, que cresce mais

  DANIEL LIMA - 19/11/2021

Acabamos de descobrir o que ninguém descobriu -- e se ninguém descobriu é porque somos pioneiros na descoberta. Combinado? Trata-se do seguinte: a cidade de São Paulo, nossa vizinha poderosa, razão visceral e mental de nosso Complexo de Gata Borralheira, sofreu neste século um processo de desindustrialização muito mais acentuado que o registrado no Grande ABC. Em compensação, dá goleada na região quando se trata de crescimento do PIB Geral, que é a soma de todas as atividades e de todas as riquezas.  

Sabem como isso é possível? Porque São Paulo tem aquilo que não temos e precisamos ter mas vai ser difícil ter: setor de serviços com valor agregado. Mais que isso: São Paulo não é tão dependente do setor de transformação industrial quanto o Grande ABC. Já o foi mas deixou de ser sem perder acentuadamente o vigor econômico como perdemos e lamentamos, mas não reagimos a contento.  

Sei que vão dizer que é covardia comparar os sete municípios do Grande ABC com a Capital sempre mais lustrosa, mas não é exagero.   

Gataborralheirismo 

A cidade de 12 milhões de habitantes, pouco mais de quatro vezes a soma dos municípios do Grande ABC, deveria ter sido observada atentamente ao longo de décadas como espaço enorme que transbordaria ideias e projeções que poderíamos assimilar. Aliás, Celso Daniel sugeriu incansavelmente isso às atividades de serviços mais nobres. Não foi ouvido.  

E o que tivemos? Ficamos com aquela bobagem de olhar para a Capital com a admiração dos baba-ovos ou com o ceticismo dos arrogantes. Uma bipolaridade típica de Complexo de Gata Borralheira, tema do qual me apropriei por falta de competidores e até escrevi um livro alegórico a respeito, em abril de 2002.  

Remelexo numérico  

Vamos aos números para mostrar que não se trata de teorias sem as devidas comprovações.  

Em 1999, ano-base de nossos estudos, o PIB Industrial de São Paulo registrava oficialmente R$ 36.411,60 bilhões em valores de então. O Grande ABC contava com R$ 12.652,19 bilhões. Ou seja: o PIB Industrial do Grande ABC correspondia a 34,75% do PIB Industrial da Capital.  

Quem ouviu ao longo da vida que o Grande ABC era a capital industrial do País foi mal-informado. Complexo de Gata Borralheira puro. Capital Automotiva é uma coisa, Capital Industrial é outra.  

O que aconteceu 19 anos depois já contabilizados, quando surgiu a atualização do PIB Industrial?  

Menos e muito mais  

O PIB Industrial de São Paulo cresceu em termos nominais, sem considerar a inflação do período, apenas 59,44% (a inflação do IPCA chegou a 221,09%), enquanto o Grande ABC registrou aumento de 145,85%.  

Ou seja: o PIB Industrial do Grande ABC cresceu mais que o dobro do PIB Industrial da Capital. E tanto um quanto outro abaixo da inflação. Desindustrialização pura.  

Com isso, o PIB Industrial do Grande ABC passou a ter participação relativa no PIB Industrial da Capital de 53,57% -- R$ 31.105,86 bilhões ante R$ 58.054,69 bilhões.   

O segundo tempo desse embate é francamente desfavorável ao Grande ABC porque, repito, não temos agregado de serviços típico das grandes metrópoles.  

Outro mundo  

São Paulo conta com serviços de marketing, financeiro, investimentos, imobiliários, restaurantes, centros de evento, escritórios de advocacia, de assistência médica, e tudo aquilo que a torna polo de uma demanda que vai muito além de suas fronteiras.  

O Grande ABC não precisaria contar com tudo isso, mas se contasse com alguma coisa substantiva disso seria uma maravilha.  

Temos alguma coisa é verdade, mas longe do necessário para tapar o buraco aberto pela desindustrialização que vem dos anos 1980, se acentuou duramente nos anos 1990 e neste século caminha a passos mais ou menos suaves, mas inquietantes porque continuados.  

Salto em serviços  

Os serviços empurraram tanto o crescimento da Capital que, ao longo de 19 anos, a evolução nominal do PIB (Produto Interno Bruto) geral registrou 602,13% (eram R$ 112.547,64 bilhões em 1999 e passou para R$ 714.683,36 bilhões em 2018), enquanto no Grande ABC o PIB Geral não passou de avanço nominal de 370,81% (eram R$ 26.884,25 bilhões em 1999 e passou para R$ 126.573,33 bilhões em 2018).  

Ou seja: o PIB Geral da Capital era 4,18 vezes maior que o PIB Geral do Grande ABC em 1999 e passou à superioridade de 5,64 vezes em 2018. Praticamente 26% de vantagem relativa no período.  

A velocidade de crescimento do PIB Geral da Capital é muito maior que a do Grande ABC mesmo tendo a maior cidade do País registrado um estrago e tanto no tecido de transformação industrial. Estrago que vai prosseguir provavelmente em ritmo ainda maior na comparação com o Grande ABC.  

O problema está mais adiante, porque poderemos ter a aceleração regional de desindustrialização sem contar com a recomposição do espaço perdido por um setor de serviços dinâmico.  

Estado também melhor  

Quem achar com alguma justa razão, porque Capital é Capital, que a comparação é rigorosa demais para o Grande ABC, vamos então aos números médios do Estado de São Paulo?  

O PIB Industrial dos paulistas durante os 19 anos já apurados neste século, como informamos ontem, avançou 210,14%. Bem acima, portanto, dos 145,85% do Grande ABC. E no PIB Geral, os paulistas avançaram 549,63%, ante 370,81% do Grande ABC. O setor de serviços no Estado de São Paulo registrou crescimento nominal no período de 614,11%. Também muito acima da região.  

Expostos os números e as diferenças nos números, está mais uma vez evidenciado que a dinâmica econômica do Grande ABC perde terreno diante de vários cenários. Isso significa que não existe a menor possibilidade de se esgrimirem, como num passado ainda recente e ignorante, quando não abusivos, dados que de alguma forma interferem no ambiente de mobilização de peças-chave de lideranças anestesiadas ou entediadas.  

Nos 30 anos de LivreMercado/CapitalSocial preferencialmente dedicados aos sacolejas da economia do Grande ABC nas mais diferentes vertentes, é muito pouco provável encontrar provas mesmo que residuais que recomendem contenção da insatisfação.  

O discurso de que é impossível lidar com a macroeconomia e com o federalismo pátrio não cola simplesmente porque outras praças municipais se deram e estão se dando muito melhor.  

Ou assumimos nossos erros e omissões ou tudo vai se agravar entre outros motivos porque o mundo roda a uma velocidade bem maior que a nossa. 

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