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Política

DANIEL LIMA - 09/09/2026

O francês Philippe Petit ganhou fama internacional ao percorrer sobre um cabo de aço o espaço que separava as duas Torres Gêmeas que mais tarde o terrorismo destruí no coração da América. Paulinho Serra vai muito além na política regional:  está percorrendo e desafiando torres trigêmeas nesta temporada política. O cabo de aço liga o triângulo formado pela Torre do Poder Político no Paço Municipal, a Torre da Classe Formadora de Opinião e a Torre do Assistencialismo na Periferia.

Será que Paulinho Serra vai se dar bem na empreitada eleitoral ou vai se esborrachar todo e sair com capital eleitoral menos robusto do que aparenta dispor para a temporada de disputa de uma vaga à Câmara Federal?

TRÊS TORRES

A primeira das torres trigêmeas está relacionada às ambições políticas de Paulinho Serra e tem o Paço Municipal como símbolo, embora satélites locais e mesmo estaduais também tenham tentáculos ali. Paulinho Serra pretende voltar ao comando da Prefeitura em 2029. Para tanto, não esconde dos mais próximos que o prefeito Gilvan Ferreira seria apenas um detalhe.  

A segunda torre que desafia as habilidades sobre o cabo de aço de Paulinho Serra está localizada no simbólico Bairro Jardim, o mais badalado endereço dos ricos e da classe média tradicional de Santo André. Ali está um emblemático nicho de  formadores de opinião, como tantos outros bairros do mesmo perfil econômico e que representam 30% do eleitorado da cidade. Gente que é ouvida, mesmo que não tenha muito a dizer.  

A terceira torre ligada ao mesmo cabo de aço de ambições de Paulinho Serra está nas políticas assistencialistas direcionadas à imensa periferias de Santo André. Nesse ponto estão as maiores concentrações de votos populares. Políticas  públicas como o Bolsa Família e variáveis estaduais e municipais se dão as mãos.

RASPA DO TACHO

Juntando-se remediados vulneráveis, pobres e miseráveis, são perto de 70% dos eleitores. Santo André está-se tornando cada vez mais socialmente igual. Pelo andar da carruagem vai se tornar nova pátria regional da igualdade sonhada pelos socialistas. Uma igualdade por baixo. Nada, entretanto,  que ameaçaria a igualdade da socialista Diadema, endereço em que ricos e classe média são raspa do tacho.

O cabo de aço percorrido por Paulinho Serra balança um bocado na torre de representações da Classe Média e de Classe Rica, e igualmente nas bases populares da torre de Classe Média Precária, de Pobres e Miseráveis. Além disso, provoca ebulições na torre do centro do Poder no Paço Municipal.

Há tempestade no cenário atual, mas também não faltam previsões de que tudo vai se acalmar. É melhor acreditar no pior cenário. Política é como cristal: depois de estragos, jamais volta a ser o que era. Pode parecer voltar, mas não volta. Mais dia, menos dia, a conta chega.

PERGUNTA CENTRAL

Paulinho Serra faria o suficiente para manter-se equilibrado e embalar passos cautelosos,  mas vigorosos rumo à torre do Paço Municipal ocupada pelo prefeito Gilvan Ferreira – a torre do Poder Político? Eis a pergunta que vale um bocado de votos.

Há projeções de que Paulinho Serra está tão comprometido com a trajetória previamente definida que não adiantaria encontrar ou acreditar que exista variável que possibilitaria chegar aos três destinos mesmo diante de percalço num dos trechos que já percorre. Não haveria fórmula mágica que impediria Paulinho Serra de esborrachar-se espaço abaixo caso perca o controle num dos trechos da travessia. É único o cabo de aço que liga os três edifícios. Se cair em desgraça em qualquer um dos trechos do triângulo de poder, haveria efeito-contaminação.

Pondera-se que bastaria a perda de controle do cabo de aço de pretensões na Classe Rica e na Classe Média Tradicional  para interromper o trajeto aos demais destinos. Haveria desgaste no prestígio do ex-prefeito perante formadores de opinião na mesma proporção em que o atual prefeito, Gilvan Ferreira, denota qualidades que os mais céticos descartavam, os mais otimistas comemoram e os comedidos desconfiam de que foram  exigentes demais.

Da mesma forma, de raciocínio similar, imaginar que o cabo de aço esticado às bases assistencialista não causaria estrondosos danos em caso de descompasso é desconsiderar o peso do voto da periferia. Da mesma forma, todo o poder político concentrado no Paço Municipal seria duramente atingido se o cabo de aço de ambições não for devidamente regulado. Passos maiores que as próprias pernas longas do ex-prefeito podem ser fatais. 

Portanto, as torres trigêmeas de desafios ao ex-prefeito Paulinho Serra estão delineadas como fita de chegada de algo que poderia ser visto como aventura, mas na prática política não passa mesmo de organização, maturidade, experiência e controle dos nervos. Resta saber se Paulinho Serra terá tudo isso.

NEGATIVO POR ENQUANTO

Por enquanto, a resposta é negativa. Paulinho Serra (e a mulher, deputada estadual, Carolina Serra) já atropelaram o prefeito Gilvan Ferreira e o grupo de assessores ao revelarem publicamente o plano de voltar ao Paço Municipal na próxima eleição. A prova provada da pressa em forma de vídeo durante um evento público afetou  diretamente a torre de poder político ao causar e também  agravar cisões internas e externas.

Há série de situações nos bastidores do Paço Municipal que colocam o casal Serra na desagradável situação de que talvez tenha se esquecido que o prefeito é outro e por ser outro não está subordinado ao passado de comando do próprio Paço Municipal. Gilvan Ferreira tem se mantido diplomático e com isso capitaliza a atenção que se expande ao Bairro Jardim e assemelhados. Os ricos e a classe média tradicional de Santo André são uma categoria longeva, egressa dos tempos de industrialização. Diferem da mobilidade social que marcou o surgimento da classe média e dos ricos de São Bernardo, egressa de empregos fabris. A classe média e os ricos de Santo André têm certos pudores silenciosos. Cair em desgraça com essa turma é um atestado de óbito.

Na periferia assistencialista há dificuldade de o casal Serra sustentar a estrutura  de votos construída nas duas últimas eleições. Surgiram novos concorrentes na arena de votos a deputado estadual e deputado federal. Já não há mais apoio monolítico da máquina pública em favor de Paulinho Serra e de dona Carolina Serra.

O reduto de assistencialismo em forma de 120 entidades sociais também foi atomizado. Carolina Serra não teria como manter a montanha de eleitores vinculados ao socorro da máquina pública.

ROMPIMENTOS

O candidato mais votado para vereador nas últimas eleições, Bahia do Lava-Rápido, virou inimigo público do casal Serra. As denúncias estão nas redes sociais. Tentaram  tirar dele a candidatura a deputado estadual. O tiro saiu pela culatra. Alex Manente, deputado federal concorrente à reeleição, ocupou o espaço e se juntou a Bahia. Também o ex-vice-prefeito, Luiz Zacarias, dono de muitos votos de excluídos da Favela do Tamarutaca e vizinhança, firmou parceria com Manente.  Outras dissidências menos barulhentas estão espalhadas por Santo André.

O trecho do cabo de aço que liga as pretensões de Paulinho Serra junto à classe política local e externa também está escorregadio. Tem-se a impressão de que passaram graxa incolor. Há defecções irreversíveis. O presidente do Legislativo de Santo André,  Carlos Ferreira, não parece ver em Paulinho Serra alguém com quem possa trocar algumas palavras sem fechar o rosto.

Carlos Ferreira tem expressiva parcela dos evangélicos como massa de eleitores. Orlando Morando, candidato a deputado federal como Paulinho Serra, virou parceiro eleitoral de Carlos Ferreira.

ZONA DE RISCO

Como se observa, o cabo de aço que conduz Paulinho Serra rumo às torres trigêmeas não parece fora da zona de risco. Há sacolejadas que exigem muita destreza. O efeito-contaminação é latente. Um escorregão e tudo se perderia. Para chegar em condições competitivas nas eleições municipais de 2028  Paulinho Serra teria de evitar desliza em qualquer um dos três trechos que levam às torres trigêmeas. Por enquanto, preliminarmente, está se segurando dentro das possibilidades típicas de disputas eleitorais. O saldo de outubro próximo determinará até que ponto Paulinho Serra teria sobrevivido às intempéries que afetam a jornada desafiadora. A margem de erro de eventuais perdas de ativos não pode comprometer a jornada. Manter o capital político e eleitoral razoavelmente protegido já seria um bom resultado. 



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