O Diário do Grande ABC propôs ainda outro dia em espaço reservado ao Editorial (a opinião oficial da publicação, à página dois) uma empreitada interessante para a região e sobre a qual fiz breve análise, de apoio à iniciativa. Também lamentei do alto de minha inveja boa que não houvesse pensado antes no assunto, já que regionalidade é minha especialidade. O que o Diário do Grande ABC propôs é muito positivo a ponto de esticar o assunto nesta edição.
Formulo duas perguntas a mim mesmo como auto-desafio, mas como não sou egoísta, nem egoísta bom, recomendaria aos leitores que também são eleitores que pensem comigo na possibilidade de encontrar respostas ao que vou expor. E exponho em função da questão básica levantada pelo Diário do Grande ABC.
O Diário do Grande ABC sugeriu, propôs, recomendou e tudo o mais que o Grande ABC trabalhasse com disposição e desapego em favor de uma liderança política que poderia contar com apoio maciço da região a ponto de ganhar tração econômica, social e partidária para chegar a voos mais elevados na hierarquia da política estadual e nacional, saindo de postos legislativos e também deixando de ser prêmio de consolação na ocupação de alguma secretaria de Estado.
QUESTÕES BÁSICAS
Feito esse esclarecimento, ou recuperado essa bela jogada do Diário do Grande ABC, vou formular questões básicas para que tudo não passe de desejo e se transforme em algo realizável de verdade.
Primeira pergunta --- Como seria possível definir um processo estratégico que fosse o endereço certeiro ao atingimento prático da proposta do Diário do Grande ABC?
Segunda pergunta – Quem vai colocar o guizo de definições condicionantes no pescoço de execução do plano sem que a iniciativa floresça eivada de vícios propulsores de divisionismos que abortariam a própria iniciativa?
A resposta às duas questões carregam toneladas de condicionantes mas nada que não possa ser resolvido se o propósito coletivo não for prejudicado por dissidentes personalistas.
Nestas alturas da vida econômica e social do Grande ABC, além de conjecturas político-partidárias, quais nomes estariam mais apetrechados a receber o máximo possível de adesões regionais de modo a, mesmo com eventuais dissidências, ganhe musculatura e possa ser institucionalizado como o resumo da ópera de interesses múltiplos?
AMADURECIMENTO
Outra questão que não pode ser descartada dá espaço à necessidade de compreender as dificuldades à equalização tática do projeto a ponto de não se construírem pontes que possam ser dinamitadas durante o processo de amadurecimento da jornada, correndo-se o risco de que tudo volte à estaca zero.
Vamos a uma exploração especulativa desse tema dando nomes aos bois que supostamente teriam o aval senão unânime, porque impossível, mas relativamente maciço da sociedade como um todo? É aí que mora o perigo da inconsistência que levaria a uma forçada de barra que produziria fissuras na proposta.
Quem mais nesse momento da vida regional estaria na liderança da largada no projeto seria o ex-prefeito de São Bernardo e até outro dia badaladíssimo secretário de Segurança Pública da maior cidade do País, agora candidato a deputado federal. Mais que tudo isso: também possível candidato à sucessão do prefeito Ricardo Nunes, na Capital.
Com todo esse currículo, Orlando Morando dispararia à frente dos demais bem menos apetrechados.
FALTA ABRANGÊNCIA
Agora é que vem o contraponto: por mais méritos que Orlando Morando tenha, e os tem de verdade, ainda precisa de muito mais para ser recomendado sem maiores restrições à liderança consensual, ou institucional do Grande ABC, em instâncias de poder estadual e federal.
Orlando Morando não é um político que esparrame febre de regionalidade em qualquer sentido etimológico e institucional. Parece não se importar com a regionalidade como matriz de qualquer objetivo mais promissor. E deve estar tão convicto sobre isso que mantém comportamento inabalável.
Orlando Morado não precisou de qualquer instância regional para virar o que virou e quem sabe chegar ao governo do Estado. Nesse caso, e considerando na prática o que a teoria supostamente o bombardearia em suas pretensões, Orlando Morando não caberia no modelo esquadrinhado na sugestão do Diário do Grande ABC. Talvez pudesse dar um cavalo de pau nesse sentido se o referencial de tempo para que se alcance os objetivos essenciais da proposta seja o ano de 2030, quando se fecharia essa década.
BATISMO OBRIGATÓRIO?
Pode ser que nos próximos tempos a política administrativa dos municípios do Grande ABC venha a revelar um e outro administradores que poderiam desfilar na passarela de probabilidades e se encaixariam no desenho de representatividade traçado pelo Diário do Grande ABC.
Aliás, esse período seria de certa maturação, porque ao mesmo tempo em que se observariam os candidatos naturais à empreitada, poderiam clarear vários pontos da ideia proposta até mesmo para a definição do que chamaria de regras do jogo.
Não acredito que o Clube dos Prefeitos seja um batismo obrigatório ao salto regional em direção a um estágio superior na política estadual e mesmo federal, mas conviria analisar com cuidado se essa premissa seria mesmo descartável ou minimizada.
Até prova em contrário, eventuais e necessárias alterações conceituais e estruturais no Clube dos Prefeitos poderiam avançar em ritmo mais veloz a essa junção de valores a fim de dar celeridade e tessitura pública à definição do escolhido para a tarefa de acabar com a orfandade do Grande ABC em organizações mais relevantes do País.
Supondo-se que Orlando Morando chegue como é viável ao cargo máximo da maior Prefeitura do País, possivelmente a independência que mantém da estrutura institucional do Grande ABC incrementaria uma empreitada fora de qualquer compromisso de coletivismo político com a região.
AÇÃO PARALELA
Nesse caso, a reivindicação do Diário do Grande ABC estaria fadada ao fracasso? Claro que não. Seria melhor supostamente que Orlando Morando fosse a flecha do arco de regionalidade política do Grande AB. Entretanto, nada impediria que o projeto se alimentasse de engrenagem completamente distinta da individualidade do ex-prefeito de São Bernardo com vistas a uma ação paralela de introdução na hierarquia política estadual e nacional com maior respaldo social, político e econômico.
Embora tenha muitas restrições ao coletivismo dos prefeitos no Clube dos Prefeitos, entendo que por conta de atividades municipalistas, nas quais todos estão muito envolvidos, o Grande ABC pode dar uma ensaiada geral à aferição de quem é quem como selecionável ao projeto do Diário do Grande ABC.
Essa formulação de cenário poderia induzir o leitor a contrapor a importância do Clube dos Prefeitos, porque o municipalismo seria a base da avaliação dos atuais prefeitos. Em parte os leitores teriam razão, mas apenas em parte. O Clube dos Prefeitos é uma peça-chave nesse processo de expansionismo político do Grande ABC. Basta que deixe a barra da saia da baixa efetividade desde sempre e, com inovações, torne-se instrumento indispensável à aproximação entre a potencialidade de resolução de nossos maiores problemas e a efetiva execução de políticas públicas.
COLEGIADO ADMINISTRATIVO
E nesse caso parece inescapável que um colegiado executivo reuniria de maneira mais produtiva a função de conselheiros à frente da organização. Teríamos, portanto, um grupo de profissionais reconhecidamente respeitáveis em competitividade econômica.
Essa formulação carregaria uma vantagem enorme a ser compartilhada pelos sete prefeitos. Primeiro, acabaria de vez com a repetição eterna de que o Clube dos Prefeitos de fato é o Clube dos Prefeitos do Prefeito da vez. Segundo, substituiria a personalização do prefeito da vez do Clube dos Prefeitos pela neutralidade político-operacional que uma diretoria executiva e técnica sem qualquer conotação político-partidária.
O desenho organizacional e operacional do Clube dos Prefeitos não funciona desde sempre porque a rotatividade de comando da instituição é geneticamente deformada. O prefeito dos prefeitos da vez geralmente fica isolado dos demais e com isso impõe marcas individuais e municipalistas. Portanto, o colegiado não passa mesmo de individualidade rotativa.
FUNÇÕES DISTINTAS
Por conta disso, um grupo de executivos preferencialmente sem ligação partidária mas como objetivos programáticos teria efetividade construtivista que consagraria os prefeitos de plantão, aos quais caberia a função de conselheiros da Administração. O dia a dia operacional e estratégico do Clube dos Prefeitos seria função do grupo de executivos contratados, aliviando o peso dos prefeitos sempre às voltas com os respectivos territórios municipais como essência de mandato.
O Grande ABC partido e repartido em sete pedaços desiguais só ganharia a forma efetiva de mosaico quando se der conta de que essa é a melhor e talvez única saída para destruir de vez um quebra-cabeças inconciliável no formato que perdura há quase 36 anos.
Uma liderança regional expandida às esferas estadual e federal seria mais portentosa e comprometida para valer com o futuro da regionalidade se for parida por algo completamente diferente do figurino municipalista e individualista que ostentamos. O modelo atual é um quebra-galho que mesmo em caso de eventual sucesso não representaria os sonhos e as necessidades do Grande ABC.