Ainda falta muito tempo para as próximas disputas eleitorais que elegerão os sete prefeitos do Grande ABC, mas não custa nada plantar uma ideia que teria muito tempo, portanto, para germinar e florescer. Uma campanha sem cores partidárias que apele à participação mais efetiva do eleitorado. Não podemos desperdiçar tantos eleitores como desperdiçamos nas eleições municipais de 2024. Voto para prefeito tem peso diferenciado rumo ao futuro que sempre chega como presente de verdade ou presente de grego.
Sabem os leitores quantos eleitores jogaram fora os votos que poderiam ser amealhados pelos chefes de Executivos da região em 2024? Não vou fazer suspense. Foram exatamente 625.460 de um total disponível de 2.149 milhões. Vinte e nove a cada 100 eleitores se abstiveram, votaram em branco ou anularam votos.
É uma barbaridade. Mas não é uma barbaridade específica do Grande ABC. Na Capital de 9,3 milhões de eleitores, esse Triângulo da Bermuda da Democracia destruiu capital político de 2.940.360 milhões. Um pouco acima da margem destruidora do Grande ABC. Na vizinha capital foram 31,61% do eleitorado a deixar para lá a votação a prefeito.
FÓRUM DA CIDADANIA
Exponho essa sugestão em forma de proposta que também poderia ser transformada em compromisso tácito de instituições de diversos calibres com uma finalidade central: precisamos estimular o voto como símbolo de pertencimento municipalista (com fundo regionalista), independentemente de outras esferas de poder.
Pode parecer bobagem, mas uma sociedade que decide partir para uma espécie de inovação na abordagem eleitoral como fita de largada a novas empreitadas pode, essa mesma sociedade, despertar compulsoriamente a outras iniciativas inclusive fora do espectro político-eleitoral.
A campanha Voto no Grande ABC, deflagrada em 1994 pelo então recém-criado Fórum da Cidadania, foi um sucesso de público, bilheteria e democracia. O Fórum da Cidadania se constituía a mais interessante formulação coletiva na história do Grande ABC e deu o pontapé inaugural de entusiasmo geral exatamente com o lançamento da campanha pró-voto regional --- no caso para a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal.
RAIZ DA REGIONALIDADE
Fizemos 14 deputados nas duas casas. Pena que o Fórum da Cidadanias, uma construção social liderada subjacentemente pelo Diário do Grande ABC, tenha se perdido gradualmente no tempo até que se tornasse uma tremenda decepção. E nesse caso sem resquício de responsabilidade do Diário do Grande ABC, que segurou a peteca de apoio até onde pode.
Mas valeu a pena o Fórum da Cidadania ter existido porque foi uma extraordinária experiência de coletivismo regional. Aprendi muito naquelas reuniões em que o consenso era a chave de ignição às deliberações. Depois, relativizou-se a premissa, corretamente.
O Fórum da Cidadania foi tão relevante mesmo com os pecados cometidos que determinou a carreira vitoriosa de Celso Daniel como maior agente público regional da história. Tudo o que Celso Daniel promoveu de inovação institucional na região (Clube dos Prefeitos, Agência de Desenvolvimento Econômico e Câmara Regional) está vinculado ao estrondoso lançamento do Fórum da Cidadania, organização que reunia dezenas de entidades.
Não precisamos de um novo Fórum da Cidadania para construir um projeto de valorização do voto nas disputas municipais. Basta querer querendo. Acho que o Clube dos Prefeitos poderia tomar essa iniciativa. Diriam os leitores mais céticos que o Clube dos Prefeitos seria suspeito, porque, afinal, é o Clube dos Prefeitos. Verdade.
MUDANDO DE ROTA
Mas o Clube dos Prefeitos também ganharia mais interatividade junto à sociedade se chamasse a mesma sociedade, em várias de suas representações, para a formação de uma espécie de Conselho do Voto, algo assim, a fim de levar adiante essa loucura que estou apresentando.
Pensei ontem à noite, quando essa loucura povoou minha cabeça, em adotar um mote tipicamente publicitário como espécie de âncora da campanha. Cheguei mesmo a criar esse mote, consumando-o no teclado de meu computador. O mesmo computador em que escrevo este texto. Fui dormir com a ideia na cabeça.
Nada melhor que uma noite mesmo mal dormida. Desisti da mensagem central, em forma de chamamento geral. A proposta esbarraria na versatilidade, na criatividade, nessas coisas que os marqueteiros políticos tratariam de explorar. Eles pegariam carona e avocariam a seus candidatos a glória da valorização do voto municipalista.
SEM OPORTUNISMOS
Decidi em função disso que o melhor mesmo seria buscar uma resposta que sintetizasse meu pensamento de tal maneira a ponto de tornar impossível a quem quer que seja meter a colher de oportunismo em proveito próprio. O que resultou nesta manhã foi a simplificação geral e irrestrita da mensagem: VOTE!
É isso mesmo: VOTE! A repetição que utilizo na manchetíssima desta edição, ali no alto da página, é apenas uma formalidade ditada pelo escravagismo editorial de preencher duas linhas de título com no máximo 18 caracteres cada uma. É isso mesmo: estamos presos indelevelmente às algemas de um padrão gráfico que nos obriga a encontrar as palavras certas e os sentidos equivalentes para não vender gato de enunciado dúbio por lebre de enunciado esclarecedor.
Não conheço pesquisas ou estudos que identifiquem o grau de comprometimento do eleitor com o candidato escolhido e vitorioso como prefeito. Acredito que é bem diferente de escolhas a outros cargos, exceto, nestes tempos polarizados, do presidente da República. Por isso, nada mais adequado do que testar o grau de fidelidade e compromisso com a terra em que se vive senão estimular a votação com a redução do Triângulo das Bermudas.
DESPERDÍCIO DEMAIS
Por falar em Triângulo das Bermudas e por falar em ditadura gráfica que exige o encapsulamento de palavras no curral de caracteres irremovíveis, pensei em chamar à manchetíssima aí em cima a expressão “Triângulo das Bermudas”. Fiz alguns testes e desisti. Não consegui encontrar as palavras que a complementasse na linha inferior do título de modo a supostamente a resumir essa ópera textual.
É verdade que se contasse com mais tempo certamente encontraria uma saída, porque sou insistente quando desafiado. Mas desisti diante de compromissos impostergáveis. De qualquer forma, acho que a multiplicação do “VOTE!” me socorreu satisfatoriamente tanto quanto contemplou a curiosidade dos leitores. Experimente repetir o título deste artigo em ritmo de Maria-Fumaça. Soa interessante. Quem sabe essa ideia vire um trem-bala de votos adicionais?
Mas, voltando ao que interessa, não custa repetir o tamanho da encrenca de alheamento da sociedade em relação à disputa para prefeito dos sete municípios do Grande ABC em 2024. Mais de 600 mil votos jogados no lixo é muita coisa. Não se trata de fenômeno, desprezo, descaso ou o que seja especificamente dos cromossomos do Grande ABC. O Brasil como um todo é um festival de distanciamento entre contribuintes e administradores municipais nas urnas eleitorais.
MENOS NOS MENORES
Mas não é porque o Brasil é assim que temos de ser simplesmente uma extensão. A campanha que sugeri poderia ser um desafio geral. Quem sabe os resultados colocariam o Grande ABC em sintonia divergente da média nacional e provocaria uma correnteza de seguidores?
Quem vota para prefeito se sente mais cidadão do que quem prefere não votar. Um terço de eleitores que deixam de votar para o principal cargo público com que se relacionam direta ou influentemente constitui imenso bloco de cidadania contida, quando não omissa.
No Grande ABC de 2024, não coincidentemente, os municípios que apresentaram as menores taxas de distanciamento das eleições às respectivas prefeituras são os que contam com menor número de eleitores. Em São Caetano, de apenas 15 quilômetros quadrados de território, 20,17% dos eleitores formaram o batalhão de ausentes, votos em branco e votos nulos. São Caetano só perdeu para aos 17,03% de Rio Grande da Serra e os 19,56% de Ribeirão Pires.
Nem Diadema, endereço reconhecidamente politizado internamente, com o PT dominando a cena ao longo de 40 anos, conseguiu escapar do Triângulo das Bermudas. O índice de desperdício de votos para prefeito em 2024 chegou a 29,85%. Entre os não ausentes, ou seja, entre os eleitores que foram às urnas, Diadema contou com a maior participação efetiva em forma de voto válido, com 92,37% do total. A disputa entre o prefeito petista José de Filippi Júnior e Taka Yamauchi, vencedor, foi mesmo intensa -- noves fora o Triângulo das Bermudas.
Como aumenta o contingente de desertores à medida que cresce o estoque de eleitores, os demais municípios do Grande ABC não escaparam da catástrofe. Em São Bernardo, abstenções, votos em branco e votos nulos tiveram maior incidência que na Capital. Nada menos que 32,30% dos eleitores rejeitaram votar numa das duas alternativas para prefeito. Em Santo André foram 28,67% e em Mauá 30,56%.
Acho que poderíamos pensar seriamente nesse assunto. As urnas municipalistas parecem distantes, mas o tempo passa rápido. A média de 35% de votos válidos que contemplou os prefeitos vencedores no Grande ABC em 2024 é muito baixa. Precisamos aumenta a taxa de comprometimento de votos saudáveis, reduzindo os riscos do Triângulo das Bermudas. VOTE!