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Economia

DANIEL LIMA - 04/05/2026

Imagine o seguinte cenário: em 1999, antessala do novo século, a participação da indústria de transformação na Economia regional ( 47,06%) praticamente empatava com as demais atividades. Trinta anos depois, em 2030, não passaria de 15%. Se você pensa que estamos tratando de ficção econômica, está completamente fora do prumo analítico. É exatamente isso, provavelmente na melhor versão, que viveremos dentro de alguns poucos anos. Nos últimos 22 anos perdemos de produção industrial, de PIB Industrial, algo equivalente à soma de Santo André e São Caetano no setor – mais de R$ 10 bilhões, numa comparação ponta a ponta.

A desindustrialização do Grande ABC ainda não tem data para terminar. Tampouco os estragos que continuará provocando. Ignorar essas premissas é continuar  espancando a realidade dos fatos e adiar o há muito tempo inadiável: deflagrar ações corretivas, adaptativas e principalmente mudancista às matrizes econômicas da região. O império industrial que elevou o Grande ABC a uma potência econômica e social há muito desmoronou. Estamos cansados de mostrar provas dos nove. Em diferentes indicadores sociais e econômicos, quando não culturais.

Os números que demarcarão na prática a degringolada econômica e social do Grande ABC já existem numa ponta (na largada da realidade mensurada e confirmada) e se estenderão quase que automaticamente ao extremo oposto, no caso o ano de 2030. Os 15% de participação industrial não é uma fantasia imaginada para chamar a atenção. É o que se descortina sem manipulação ou comiseração.

CAOS ESTRUTURALIZANTE

A desindustrialização do Grande ABC é um caos estruturalizante. Ou seja: é algo como a força da natureza. Somente um milagre completamente fora de cogitações atuais a impediria. A recidiva da queda da participação relativa do PIB Industrial e também a recidiva queda da participação absoluta do PIB Industrial no conjunto de riquezas do Grande ABC são apenas questões de tempo. Estão nos números. Somente alquimistas encontrariam algo diferente na cartomancia do ilusionismo populista.

Nem sempre a queda de participação relativa significa perda de participação real. A primeira se dá quando, no caso de confronto entre indústria e os demais setores, os demais setores avançam tanto acima da média industrial que há descolagem de pesos relativos de domínio econômico. A segunda, de perda absoluta, se configura quando uma atividade, no caso o setor industrial, corre abaixo da linha inflacionária de atualização dos valores. O Grande ABC conta com maior participação real e relativa de todos os setores, menos do setor industrial. E o setor industrial sofreu queda tanto num caso quanto no outro.

Fizemos as contas da fragilização industrial do Grande ABC ante às demais atividades. Os dados envolvem a base da pesquisa, o ano de 1999, e a temporada de 2021. São, portanto, 22 anos de resultados, a partir do início deste século, em 2000. O IBGE está devendo quatro rodadas anuais do PIB Industrial. Na verdade, são três temporadas – de 2022, 2023 e 2024. Os números de 2025 supostamente seriam anunciados em dezembro próximo. Supostamente é uma condicionalidade obrigatória à menção. O IBGE tem-se mostrado trapalhão. O PIB Geral dos Municípios de 2022 e 2023 foi publicado em dezembro último. Mas não especificou comportamento setorial de indústria, comércio, serviços, agropecuária e construção civil.

FALTAM NOVE ANOS

Exatamente por isso – ou seja, da defasagem de três anos – e considerando os dados que ainda virão nesta segunda metade da terceira década deste século, o que temos pela frente são nove de 10 anos de uma década para confirmar ou não a projeção de redução da participação da indústria à 15% de tudo que se expressa em forma de crescimento do PIB Geral.

Não custa ressaltar que tudo que você acompanhar nesta análise, até eventual citação diferente, refere-se, portanto, ao período de 2000 a 2021, tendo 1999 como base.

É nesse ponto que o espetáculo regional começa a se tornar tormentoso. O que foi para o esgoto de perdas de forma efetiva, ou seja, de produção material, em termos de PIB Industrial chega a R$ 10.240.012 bilhões. Numa comparação ponta a ponta chega-se à queda de 26,60%.

Como as demais atividades avançaram no mesmo período, mas sempre em níveis baixíssimo, como de resto no País, mas mais no Grande ABC, a participação relativa da indústria de transformação caiu de quase metade (47,06%) para 25,71%. Uma perda relativa de 45,37%.

CRESCIMENTO ABAIXO

Já o PIB Geral do Grande ABC em 1999, em termos nominais, sem considerar a inflação do período, era de R$ 26.885,46 bilhões. Quando se coloca a correção monetária, o PIB Geral passa para R$ 103.578,92 bilhões. Mas o Grande ABC de PIB Geral registrou, de fato, R$ 150.576,35 bilhões. A diferença permitiu crescimento real que significou avança médio anual de 2,06%. Sempre em termos brutos, que não consideram o crescimento demográfico do qual vamos nos ocupar em outra oportunidade.  

Aparentemente, portanto, para quem insiste em não observar a degringolada do Grande ABC, o que temos como PIB Geral em 2021 é a recusa a qualquer tipo de avaliação que registre preocupação.

A diferença entre o crescimento do PIB Geral e do PIB Industrial é constrangedora. O PIB Geral, ou seja, de todas as atividades, inclusive o PIB da Administração Pública, elevado com o avanço da carga tributária municipal, cresceu muito mais que o PIB Industrial. O PIB Geral  avançou 460,07% no período de 22 anos. Já o PIB Industrial registrou crescimento nominal de 204,32%  - menos da metade.

ABAIXO DA INFLAÇÃO

Quando se deflacionam os valores, ou seja, quando se atualizam os valores com base na inflação do IPCA entre janeiro de 2000 e dezembro de 2021, chega-se ao índice de 285,26%. Portanto, o PIB Industrial correu em velocidade inferior (204,32%)  ao índice inflacionário. Daí, a queda de mais de R$ 10 bilhões no confronto ponta a ponta de 22 anos.

O PIB Industrial do Grande ABC caiu em média 1,21% ao ano, enquanto o PIB Geral cresceu 2,06%. Houvesse registrado ao menos empate de produção e inflação no período, o PIB Industrial teria elevado consideravelmente o PIB Geral.

Uma prova de que essa não é apenas uma teoria, mas um processo lógico de vasos comunicantes entre o setor industrial e o restante da Economia dos municípios está na média geral dos 565 municípios paulistas no mesmo período de análise. O PIB Industrial paulista cresceu em termos nominais  entre 2000 e 2021, com base em 1999, 310,72%, enquanto o PIB Geral avançou 699,26%. Ou seja: enquanto o PIB Industrial médio do Estado de São Paulo cresceu mais de 100 pontos percentuais nominais sobre o PIB Industrial do Grande ABC (310,72% ante 204,32%) o PIB Geral paulista também foi mais robusto com 239,19 pontos percentuais líquidos (699,26% ante 460,07).

Se a Economia regional  houvesse registrado no período de 22 anos o mesmo comportamento da média paulista, o PIB Geral do Grande ABC não teria registrado em 2021 o valor de R$ 150.575,35 bilhões, mas sim de 214.884,73 bilhões. Uma diferença (R$ 64.308,38 bilhões) nada menos que 42,71% maior. E qual seria o PIB Industrial do Grande ABC caso incorporasse a média paulista de crescimento do setor? Ao invés de ter registrado em valores de dezembro de 2021  R$ 38.503.71 bilhões, passaria a R$51.965,07 bilhões. Nada menos que uma diferença de R$ 13.461,36 bilhões, correspondendo ao PIB Industrial de São Bernardo de 2021, correspondendo a 34,32% de todo o PIB do setor no Grande ABC. Sem o desempenho médio do Estado de São Paulo, ou seja, numa avaliação estritamente interna, dos sete municípios, o PIB Industrial do Grande ABC perdeu de fato o equivalente à soma do PIB Industrial  de Santo André e São Caetano. 

SÃO BERNARDO LIDERA

A Doença Holandesa Automotiva provocou os mais profundos desfalques no PIB Industrial de São Bernardo, mas se espalhou por todo o Grande ABC. São Bernardo passou por dois dilúvios. O primeiro durante os anos Fernando Henrique Cardoso,  iniciados em 1995 e que se entenderam até 2022 . O segundo se concentrou na gestão de Dilma Rousseff. Entre os dois períodos, os oito anos de Lula da Silva foram de doses cavalares de injeção de demanda automotiva, lubrificada pelo superavit comercial de exportações de commodities, especialmente à China. Foi uma etapa nefasta para a sucessora petista em forma de comprometimento das finanças públicas com gastos exagerados de 2003 a 2010. Receitas circunstanciais e gastos permanentes não combinam.

São Bernardo sofreu muito mais que a vizinhança regional. Com isso, teve a participação relativa no bolo regional do setor produtivo severamente comprometida. Antes da largada dessa corrida de acúmulo de derrotas do PIB Industrial da região,

São Bernardo participava com 43,62% de tudo que saia da indústria de transformação regional. Vinte e dois anos depois a fatia de São Bernardo caiu para 34,32%.

GANHOS E PERDAS

Quem mais ganhou internamente com a queda de São Bernardo foram Mauá e Santo André, exatamente por conta das vantagens da Doença Holandesa Petroquímica-Química, que gera muitos tributos fiscais e produtividade. Mauá saiu de participação relativa industrial regional de 10,17% em 1999 e registrou 20,14% em 2021. Santo André avançou de forma mais discreta: passou de participação industrial regional de 17,83% em 1999 e chegou a 20,21% em 2021.

São Caetano perdeu levemente no bolo industrial restrito aos sete municípios do Grande ABC: contava com 10,20% de tudo que se produzia na região em 1999 e caiu para 9,13% na outra ponta. Diadema perdeu um pouco mais,  mas nada que, internamente, fosse uma catástrofe: participava com 15,71% do total regional em 1999 e caiu para 13,51% em 2021. Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra pouco se movimentaram porque têm participações ínfimas: Ribeirão Pires subiu de 2,10% para 2,25% e Rio Grande da Serra manteve 0,04% na comparação ponta a ponta.

CONFRONTOS INTERNOS

Agora a comparação leva em conta os resultados internos em cada Município do Grande ABC. Ou seja: um confronto do PIB Industrial e o PIB Geral. A participação doméstica do PIB Industrial de São Bernardo  representava 52,74% do PIB Geral em 1999. Já em 2021, o registro de apenas 22,68% dá a dimensão da tragédia. Foram 30,06 pontos percentuais de rebaixamento participativo. Em 1999 o PIB nominal de São Bernardo registrou R$ 5.514,13 bilhões ante o PIB Geral de R$ 10.463,85 bilhões. Vinte e dois anos depois, o PIB Industrial não passou de nominais R$ 13.216,56 bilhões, ante R$ 58.277,01 bilhões do PIB Gral. O PIB Industrial cresceu nominalmente no período apenas 139,46%, enquanto o PIB Geral avançou 459,94%.

Santo André do Polo Petroquímico de Capuava também não superou o índice inflacionários do período, de 285,26% no PIB Industrial, que registrou avanço nominal de 244,89% ante 447,85% do PIB Geral. O PIB Industrial de Santo André em 1999 registrou R$ 2.256,54 bilhões ante R$ 7.782,62 em 2021. Já o PIB Geral passou de R$ 5.954,25 bilhões em 1999 para R$ 32.620,29 bilhões em 2021. A participação relativa do PIB Industrial no conjunto da Economia de Santo André caiu de 37,90%  para 23,85% entre uma ponta temporal e outra.

Mauá, vizinha de Santo André e mais suscetível ao Polo Petroquímico de Capuava, porque conta com maior carregamento de PIB Industrial, cresceu duplamente acima da inflação do período. Ou seja: obteve saldo positivo tanto no PIB Industrial quanto no PIB Geral. O PIB Industrial de Mauá registrou crescimento de 502,60% no período, enquanto o PIB Geral saltou 613,70%. O PIB Industrial passou de 1.287,22 bilhão em 1999 para R$ 7.756,77 bilhões em 2021. Já o PIB Geral saiu de R$ 2.839,45 bilhões em 1999 e passou para R$ 20.776,21 bilhões em 2021. A participação relativa do PIB Industrial de Mauá caiu de 45,33% para 37,33% entre uma ponta e outra. 

MAIS DESGASTES

São Caetano também sofreu os desgastes do PIB Industrial ao crescer nominalmente no período apenas 172,49% contra a inflação de 285,26%. O PIB Industrial de São Caetano passou de nominais R$ 1.290,16 bilhão em 1999 para também nominais R$ 3.515,56 bilhões em 2021. Já o PIB Geral passou no mesmo período ponta a ponta de R$ 3.014,67 bilhões para R$ 15.566,77 bilhões. A participação relativa do PIB industrial ante o restante das atividades econômicas caiu de 42,80% em 1999 para 22,58% em 2021.

Diadema também se comprovou um desastre na comparação do PIB Industrial e o PIB Geral em 22 anos. A participação relativa interna caiu de 51,61% para 28,14%. Uma queda só superada pela vizinha São Bernardo. E que se explica, essa diferença, especialmente porque o parque automotivo de Diadema é menos suscetível aos balanços da Doença Holandesa. Em 1999, sempre em valores que desconsideram a inflação, Diadema registrou R$ 1.974,13 bilhão de PIB Industrial e R$ 3.824,97 de PIB Geral. Já em 2021, os valores foram R$ 5.202,15 de PIB Industrial e R$ 18.484,36 de PIB Geral. O crescimento nominal no período foi de 163,52% no PIB Industrial e 383,25% no PIB Geral.

Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que representam pouco mais de 2% do PIB Geral do Grande ABC, também sofreram com as perdas do setor produtivo. Ribeirão Pires registrou queda do PIB Industrial de 41,06% para 22,32% na comparação ponta a ponta de 22 anos. Rio Grande da Serra perdeu participação maior ainda: de 42,01% para 16,86%. O PIB Industrial de Ribeirão Pires registrou R$ 265,25 milhões em 1999 e R$ 868,34 milhões em 2021, enquanto o PIB Geral saiu de R$ 646,02 milhões para R$ 3.891,00 bilhões em 2021. Já Rio Grande da Serra teve o PIB Industrial de R$ 69,76 milhões em 1999 chegar a R$ 162,03 milhões em 2021, enquanto o PIB Geral saiu de R$ 142,25 milhões para R$ 960,71 milhões, sempre sem considerar a inflação do período.



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