O Desenvolvimento Econômico como ferramenta única de produzir riquezas e amenizar agruras sociais foi solenemente jogado às traças no Editorial de domingo do Diário do Grande ABC. Editorial é a parte reservada à opinião do jornal a cada edição. Nem sempre, e não apenas no Diário do Grande ABC, o Editorial está sintonizado com o conjunto da obra de uma publicação ao longo dos tempos ou, em caso reformista, a partir de determinadas circunstâncias de mudança do modo de enxergar o que se passa.
Uma prova recente disso é um editorial da Folha de S. Paulo contra a implantação do voto distrital misto. Uma medida pretendida por caciques políticos a pretexto de combate ao crime organizado, mas que, de fato, só alimentaria o poderio dos bandidos. A Folha favorável ao voto distrital misto no passado apeou desse cavalo de troia contra o que resta de democracia no País. Se de fato existir.
Tenho reiterado na série “Barcaça da Catequese” as dificuldades históricas do Diário do Grande ABC em lidar com problemáticas e solucionáticas (abraço ao Dadá Maravilha). Por isso, o Editorial da edição de domingo não se insere em algum departamento de conclusões inéditas. O equívoco vem do passado. Ineditismo seria o contrário do previsto.
Vou reproduzir intercaladamente o conteúdo do Editorial de domingo do Diário do Grande ABC e pontuais avaliações.
EDITORIAL DO DIÁRIO
O Grande ABC vive situação paradoxal, aponta reportagem publicada nesta edição do Diário. Dados mais recentes sobre a pobreza nas sete cidades mostram que, mesmo com investimentos significativos, a região não consegue reduzir de forma consistente o contingente de famílias em vulnerabilidade. As sete prefeituras reservaram R$ 340,09 milhões ao setor em 2025, mas 131.566 famílias seguem no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal), vivendo com rendas muito baixas e sem perspectiva de avanço. Número suscita dúvidas sobre a efetividade das estratégias e a capacidade de diagnóstico das administrações, que parecerem não alcançar mudanças estruturais.
CAPITAL SOCIAL
O Grande ABC não consegue reduzir a pobreza, muito maior que a registrada em cadastros federais. E não existe paradoxo supostamente sustentado por investimentos públicos. Afinal, prevalece imbatível desprezo à lógica do Desenvolvimento Econômico. Nada diferente, portanto, da frustração com um País em que o Estado Federal e o Estado Estadual são péssimos exemplos ao Estado Municipal , como definiria esse trio de inferno em matéria de gastança, desperdício e corrupção. O Grande ABC, no caso Estado Regional, faz parte desse enredo. Principalmente em cada Estado Municipal. As autoridades públicas municipais, protegidas pelo predomínio avassalador da política federal nas redes sociais, deitam e rolam. Não há transparência e muito menos planejamento coletivo que resgate a integralidade territorial estupidamente fracionada no século passado com os sete municípios inconciliáveis se fingindo de parceiros. Conversa mola para boi dormir que interessa sobremaneira aos mandachuvas de plantão.
DIÁRIO DO GRANDE ABC
São Bernardo, que aplicou R$ 74 milhões, tem 36.891 famílias pobres. Santo André vive situação semelhante: R$ 71 milhões destinados à área social e, ao mesmo tempo, 39.084 moradores no cadastro federal de vulnerabilidade, além de 99.201 moradores em favelas ou comunidades. A situação não difere muito nas outras cinco cidades do Grande ABC. A soma de recursos não tem sido acompanhada de resultados proporcionais, o que reforça a necessidade de reflexão sobre as medidas executadas. Seria falha de abordagem? Faltam integração entre políticas de renda, moradia, saúde e trabalho? Os programas estariam apenas amortecendo efeitos imediatos sem alterar o cerne da questão?
CAPITALSOCIAL
As respostas do Diário do Grande ABC em forma de perguntas são parte da trilha de desajustes estatais que tornam o Grande ABC universo persistentemente fadado ao fracasso. E, por conta disso, como não é capaz de criar receitas por meio de produção e produtividade, por fontes de inovação e pesquisa, por fortalecimento do empreendedorismo privado, por investimentos com agregado de valor, vai seguir essa marcha batida de mais recursos dos contribuintes como, agora sim, paradoxalmente, motivo de a engrenagem econômica desgastar-se. Ou alguém tem alguma dúvida de que a carga tributária está na raiz desse descompasso permanente e irresistível? Afinal, na medida em que o Estado Federal, o Estado Estadual e o Estado Municipal apuram mecanismos assistencialistas que rendem votos, mais a iniciativa privada patina, quando não sucumbe. O PIB permanentemente rebaixado neste século é prova disso.
DIÁRIO DO GRANDE ABC
Se a pobreza persiste, apesar do considerável volume de dinheiro investido anualmente, é legítimo que a opinião pública questione se os sete municípios do Grande ABC estão avaliando com rigor as causas que mantêm tantas famílias sem autonomia. A região precisa examinar se há sobreposição de ações, ausência de acompanhamento contínuo ou desconexão entre iniciativas locais e diretrizes federais. Não se trata de reduzir esforços, mas de revisar caminhos para que a verba pública produza impacto real. Sem análise crítica, a distância entre orçamento e transformação tende a crescer , deixando sem resposta à pergunta que se impõe: onde está o ponto que impede avanços contra a pobreza?
CAPITALSOCIAL
O leitor não está enganado caso se tenha dado conta de que em nenhum parágrafo, ou numa simples frase, em qualquer situação que possa ser prescrutada, não identifica a lógica de que a resposta é tão evidente quanto cristalina: É a Economia, estúpidos. Não existe a menor possibilidade de descartar a criação de riqueza como fonte de transformações sociais. O Editorial do Diário do Grande ABC ignorou que, sem a bola em jogo, não existe futebol. Por isso, ao invés de Paradoxo Social o título do Editorial deveria percorrer a linha de sensibilidade e de profundidade da manchetíssima de hoje, ou seja, “Uma obviedade Assistencialista”.
ASSISTENCIALISMO RENTÁVEL
A pergunta que mais tenho feito a mim mesmo nos últimos tempos, vendo o que vejo como a repetição do passado recente e do passado mais longínquo nas ações e mistificações dos prefeitos de plantão, é a seguinte: até que ponto eles estariam mesmo preocupados em buscar soluções para a região se o insumo básico para se reelegerem e manterem respectivos redutos municipalistas é a contínua explosão assistencialista que a pobreza e a miséria garantem?
Só para completar e atualizar os dados sobre pobres e miseráveis no Grande ABC nesta temporada. Segundo dados oficiais que vão além do assistencialismo estatal apontado pelo Diário do Grande ABC, a região conta com 184.270 famílias classificadas no último estrato social na distribuição socioeconômica. São 18,2% das famílias residentes na região. Considerando-se que outras 494.944 famílias estão classificadas como Classe Média Precária, que têm um dos pés na pobreza, principalmente, e que representam outros 48,8% das famílias, a tradução dessa tragédia é a perspectiva de mais demandas sociais e novos aumentos da carga tributária. Sobram no Grande ABC apenas 118.563 moradias (11,5%) de Classe Rica e Classe Média Tradicional que poderiam respirar aliviadas como estratos economicamente estáveis.
POLÍTICA EDITORIAL
Já cansamos de expor dados econômicos e sociais do Grande ABC que corroboram com a voraz política de aumento de impostos locais em desacordo com o ritmo de caranguejo do PIB Tradicional e do PIB de Consumo.
Aliado incondicional do Clube dos Prefeitos nesta primeira temporada de novos mandantes dos paços municipais, o Diário do Grande ABC oferece a cada edição uma esquizofrenia editorial que requer atenção de especialistas: o jornal flerta com delírios de grandeza de uma região que jamais cultivou a regionalidade e expõe sem avaliação mais profunda e também sem nexo de causalidades as mazelas sociais e também econômicas compulsórias.
A bem da verdade, não se trata de política editorial recente. Durante toda a trajetória de derrocada da Economia regional, a bordo da desindustrialização, o Diário do Grande ABC atuou como barata tonta de contradições que só agravaram a reputação como fonte de informações do setor.
Em duas oportunidades como ombudsman oficial do jornal neste século, e noutra como diretor de Redação, acentuei essa constatação e essa crítica em documentos disponíveis neste site. Não se trata, portanto, de oportunismo ou qualquer tentativa desclassificatória. É simplesmente a indexação sistemática de conhecimento a salvo de pressões internas e externas.