Economia

SÃO BERNARDO É UM
CORAÇÃO PÓS-INFARTO

  DANIEL LIMA - 03/04/2025

O anabolizante em forma de receitas de commodities e de gastos fiscais durante os dois mandatos de Lula da Silva e a depressão de Dilma Rousseff levaram o coração econômico do Grande ABC à mesa de cirurgia dos governos Temer e Bolsonaro. Resultado? Nossa Capital Econômica segue requerendo cuidados extremos 19 anos depois de uma antecedente catástrofe regional chamada Fernando Henrique Cardoso.

O desleixo municipal que se insinua nesta temporada conflita com a gravidade do enfermo que ganhou fôlego com a estabilidade nos últimos anos.  

Responsável diretamente por 40% do PIB da região, e muito mais quando se consideram vasos comunicantes nos demais municípios, São Bernardo está à deriva como estratégia de recuperação econômica. A centralidade do setor automotivo já se comprovou configuração clássica e metafórica de Doença Holandesa.

Ou seja: São Bernardo depende demais do setor automotivo, sujeito a variáveis que afetam tanto o presente quanto o horizonte. São Bernardo é refém automotiva, e faz quase nada para reduzir probabilidade de novos desfalques na geração de riqueza, insumo básicos do PIB.

VEM DO PASSADO

A lista de grandes, médias e pequenas empresas do setor industrial que se escafederam é imensa. E vem desde o começo dos anos 1980. Quem faz recorte de tempo simplório para incriminar desafetos comete assassinato de reputação. O pesadelo de São Bernardo vem do passado. E não está restrito ao passado, que incrementa o presente.

Num dos mais confiáveis, embora não necessariamente unânime indicador da saúde de Economia em qualquer lugar do planeta, o PIB per capita (Produto Interno Bruto por habitante) de São Bernardo é um caso estarrecedor: nos últimos 19 anos contabilizados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), entre 2003 e 2021 (tendo 2002 como base), houve avanço real de 10,24% -- miseravelmente medíocre de apenas 0,568% ao ano. São Bernardo avançou no PIB per capita apenas 10,24% no acumulado de 19 anos, enquanto o Brasil pobre de guerra, um caso de fracasso internacional, cresceu 58,20%.

A trajetória do PIB per capita de São Bernardo neste século (dos demais municípios locais já cuidamos em outras análises, mas voltaremos ao tema) é mesmo de um coração de atleta durante os oito anos do presidente Lula da Silva, seguido de um coração infartado durante os seis anos do governo de Dilma Rousseff e de um coração sob intervenção cirúrgica e de atenção máxima durante os dois anos de governo-tampão de Michel Temer e dos três anos de quatro já apurados de Jair Bolsonaro.

DESCULPA ESFARRAPADA

Decidimos compartimentar os 19 anos já apurados deste século levando-se em conta os mandatos presidenciais. Entretanto, isso não significa que os administradores públicos de São Bernardo e o entorno institucional formado por organizações empresariais, sociais e sindicais não devam entrar na contabilidade de perdas e danos.

A concentração dessa análise no governo federal (e o aparente esquecimento de governo estadual) é o balizamento mais apropriado, mas está longe de ser predominante nos estudos e análises que já realizamos.

A velha desculpa esfarrapada de ignorantes, espertalhões e também dos mandachuvas políticos que só pensam na próxima eleição não vale. Que desculpa? A de que não se pode fazer nada como política econômica municipal porque o governo federal distribuí as cartas e joga de mão no controle dos resultados. Bobagem. Fosse assim, centenas de municípios não teriam números de sucesso em período semelhante ao que o Grande ABC acusa os golpes de empobrecimento.

MUITO POPULISMO

Alguns exemplos no Estado de São Paulo são emblemáticos de que a dependência do governo federal e mesmo do governo estadual existe em algum grau, mas não é um limitador ao Desenvolvimento Econômico. Peguem os dados de Jundiaí, Sorocaba, Osasco, Barueri e tantos outros grandes municípios paulistas e as respostas positivas saltam aos olhos. No caso do Grande ABC o que existe mesmo é incompetência generalizada.

Esta não é a primeira nem a última vez que escrevo sobre a Economia de São Bernardo, mas sempre é possível nova abordagem. No caso, esta tem uma finalidade específica: despertar o prefeito Marcelo Lima da alienação.

Pode parecer precipitação essa afirmativa, porque o mandato mal começou,  mas não é o caso: Marcelo Lima dá todas as indicações de que vai seguir dois roteiros: um pedinte contumaz de recursos estaduais e federais e uma alucinante performance populista que enfeita a cidade de rodas-gigantes e presenteia toda criança que nasce nos hospitais públicos. Há outras iniciativas que vão render muito voto na próxima disputa, mas não reverte a decadência econômica mais que explicitada nas periferias violentas controladas pelo crime organizado.

DADOS FRAGMENTADOS

Não é por outra razão senão porque é populista que Marcelo Lima escolheu para ocupar a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo um ex-vereador que o ajudou a ganhar votos num nicho geográfico de São Bernardo, no Bairro Demarchi, e que numa única entrevista concedida à mídia coop0erativa fracassou contundentemente. Rafael Demarchi não é do ramo.

Decompondo o comportamento do PIB per capita de São Bernardo  desde que Fernando Henrique Cardoso deixou a presidência,  os resultados são um convite à obviedade metafórica de que se trata mesmo de um coração que pulsa com dificuldades depois de passar pelo que passou.

Entre 2003 e 2010, ou seja, durante os dois primeiros mandatos do presidente Lula da Silva, o PIB per capita de São Bernardo cresceu cumulativamente 65,95%, com média anual de 8,24%. O debilitado PIB de 2002, base da comparação deixada por FHC,  registrava em valores nominais R$ 21.390,00. Em 2010, quando deixou a presidência, Lula da Silva registrava um saldo bastante positivo em São Bernardo: o PIB per capita, também nominal, chegou a R$ 55.615,00.  Em valores atualizados no período de oito anos, com inflação do IPCA de 56,68%, o PIB per capita de São Bernardo deveria chegar em 2010 a R$ 33.513,00 para não apontar resultado negativo deixado por FHC. Como chegou a R$ 55.615,00, o crescimento real registrou 65,95%, ou média anual de 8,24%..

SEGUNDO BLOCO

No segundo bloco temporal do PIB per capita de São Bernardo -- entre 2011 e 2016, quando Dilma Rousseff ocupou a presidência -- houve recuo de 56,92%%, média anual de 9,49%% . O governo Dilma Rousseff foi um desastre entre outras razões porque aprofundou o gasto fiscal do segundo mandato de Lula da Silva em contraposição à contração das exportações de commodities para os países asiáticos, especialmente a China. Aplicada a inflação do período de seis anos de Dilma Rousseff, o PIB per capita de São Bernardo deveria chegar a R$ 83.106,79 tendo como base o resultado de 2010 de Lula da Silva. O resultado foi decepcionante: apenas R$ 52.959,00. Menos, portanto,  que o PIB nominal herdado de Lula.  

Para completar o ciclo da realidade do PIB per capita de São Bernardo neste século, estão contabilizados cinco anos dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. O IBGE ainda está devendo três anos do PIB  per capita dos Municípios, mas não há mudanças drásticas que possam surpreender o resultado final que chegará num futuro próximo.

RECUPERAÇÃO PARCIAL

Nesse período de cinco anos, saindo do fundo do poço de Dilma Rousseff, São Bernardo registrou crescimento do PIB per capita de 5,34%, o que resulta em média anual de 1,07. É esse, em percentual emblemático, o estágio do pós-infarto. Crescimento que não garante reação incremental. As temporadas seguintes a serem reveladas deverão confirmar crescimento menos discreto.

Nesse período de cinco anos de Temer-Bolsonaro, o PIB per capita de São Bernardo cresceu cumulativamente pouco mais de 5% . Partindo da base depressiva de Dilma Rousseff, deveria acompanhar a inflação do período de 28,15% e chegar a R$ 67.866,79. Como avançou um pouco além, registrou R$ 71.496,00.

Caso corresse na mesma raia de competitividade da média brasileira, o PIB per capita de SãoBernardo nestes 19 anos pós-FHC deveria chegar a R$ 101.527,00 Os R$ 71.496,00 estão muito, muito abaixo disso. Por essas e outras a participação relativa do PIB per capita médio brasileiro aumenta cada vez mais sobre os dados de São Bernardo.

MAIS PARTICIPAÇÃO

Em 2002, a média brasileira não passava de 38,83% do PIB per capita de São Bernardo. No final dos oito anos de Lula da Silva, São Bernardo aumentou a diferença: o PIB per capita brasileira representava 35,88% do PIB per capita da Capital Econômica do Grande ABC. Após seis anos de Dilma Rousseff, a participação nacional subiu para 58,06%. E, finalmente, em 2021, cinco anos após Temer e Bolsonaro, a participação nacional aumentou para 60%.

Quando os próximos números forem revelados pelo IBGE, a distância será ainda menor. Do jeito que a banda toca, em menos de duas décadas o PIB per capita nacional estará praticamente empatado com o PIB per capita de São Bernardo. O futuro do Grande ABC automotivo ficou no passado.

E a Doença Holandesa continuará fazendo estragos. Com Lula da Silva a produção de veículos chegou a 3.638.390 milhões na temporada de 2010, muito acima de 1.775,100 milhão de 2002 de Fernando Henrique Cardoso. Com Dilma, a produção de 2016 caiu para 2,150 milhões. E no quinto ano pós-Dilma, com um Coronavírus de presente de grego e com Jair Bolsonaro na presidência, a produção de 2016 se manteve praticamente intocável, com 2,24 milhões. Segundos as últimas estatísticas, o Grande ABC participa com apenas 10% do bolo de veículos produzidos no Brasil. No começo deste século era o dobro disso. Uma queda nacional que não combina com queda relativamente regional. Ou seja: a dependência regional da Doença Holandesa Automotiva segue adiante. E preocupante.

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